Por Chiara Lombardi — No cruzamento entre memória familiar e espetáculo público surge uma figura que funciona como um espelho do nosso tempo: Alessandro Gervasi, o pequeno pianista prodígio que emocionou plateias ao se apresentar no palco do Ariston durante o Festival de Sanremo. Convocado ao estúdio de La volta buona, apresentado por Caterina Balivo, Alessandro retornou ao foco público com a mesma naturalidade com que toca: sem afetos, apenas música.
Nascido em Erice em 2018, Alessandro tem hoje seis anos e já desenha um percurso que mistura talento espontâneo e uma pedagogia afetiva. Ele conta que estuda piano apenas uma hora por dia — e ainda assim essa prática concentrada é suficiente para alimentar um virtuosismo precoce. A sua relação com o instrumento começou na pandemia, observando o pai tocar; uma pequena tecladinha de brinquedo, aos três anos, foi o primeiro palco onde aprendeu sozinho o hino nacional. Esse início lúdico foi, na verdade, a assinatura inicial de um trajeto inarredável.
O que diferencia Alessandro Gervasi é o chamado ouvido absoluto: uma capacidade rara de reconhecer notas e timbres com precisão. Essa habilidade o colocou em evidência em 2024, quando, em maio, conquistou o primeiro prêmio de um concurso musical internacional. Em agosto, um vídeo seu improvisando ao lado de um campeão mundial de acordeão viralizou, abrindo caminhos que poucos garotos de sua idade conhecem — inclusive o convite para o casting da ficção “Champagne“, dirigida por Cinzia TH Torrini.
Os pais, inicialmente reticentes, aceitaram o convite da diretora. O resultado foi uma experiência celebrada pela família e pelo público: Alessandro se encantou tanto com o set que pediu como presente de aniversário o claquete do filme. Há, no episódio, a semiótica do viral — um acontecimento privado que, pela internet, transforma-se em oportunidade pública, reframe instantâneo de uma infância.
Em outra página desse roteiro em formação, ele comemorou o sexto aniversário em San Marino, onde arrebatou o primeiro prêmio em um concurso conduzido por Beppe Vessicchio, interpretando “Libertango” de Astor Piazzolla. Conhecido por estender as aulas além do previsto pela sua fome de aprender, Alessandro costuma tocar a quatro mãos com o seu professor — imagens de um aprendizado que é, ao mesmo tempo, rigor e leveza infantil.
Chamar Alessandro de fenômeno ou bambino prodígio é factual; porém, o que me interessa enquanto analista cultural é entender o que esse fenômeno nos diz: sua trajetória revela um roteiro oculto sobre como moldamos o talento no espaço público contemporâneo. Entre a intimidade doméstica — a curiosidade infantil perante o piano do pai — e a vitrine do Ariston, há um cenário de transformação onde a cultura audiovisual reconfigura itinerários de infância e profissionalização precoce.
Com apoio familiar e um manejo cotidiano que privilegia a leveza, Alessandro segue tocando como quem diz mais com notas do que com palavras: uma presença que, por ora, promete continuar ecoando no tempo e na memória coletiva. Se o entretenimento é o nosso espelho, este menino nos mostra que, às vezes, a imagem refletida contém já a composição da próxima cena.





















