Por Chiara Lombardi — Em mais um comentário ácido que repercute além das colunas do jornal, o crítico e vicediretor do Corriere della Sera, Aldo Cazzullo, reatualizou a controvérsia em torno da faixa vencedora do Sanremo 2026, Per sempre sì, interpretada por Sal Da Vinci. Em resposta a um leitor, Cazzullo reafirmou a expressão que provocou o início do debate: considerou a música “adatta ad un matrimonio camorra” — uma fórmula que imediatamente ecoou como um espelho perturbador do imaginário coletivo.
No texto publicado, Cazzullo sublinha o amor profundo por Nápoles e pelos napolitanos, ao mesmo tempo em que distancia a sua afeição do estilo de Sal Da Vinci. “Amo Napoli e i napoletani. Sal Da Vinci è la Napoli che pensano e che vorrebbero coloro che la detestano. Siccome io la amo, non mi piace Sal Da Vinci”, escreve o jornalista. A linha de crítica não rejeita a tradição napolitana — longe disso: Cazzullo enaltece nomes que ele considera guardiões autênticos dessa herança, de Caruso a Renzo Arbore, passando por ícones como Pino Daniele, Tullio De Piscopo, Tony Esposito e a Nuova Compagnia di Canto Popolare.
Para Cazzullo, artistas como Geolier ou Nino D’Angelo representam vozes originais que dialogam com a contemporaneidade; já a interpretação de Sal Da Vinci e o universo que ela simboliza remetem a um estereótipo sentimental e melodramático — a “attitudine strappacore, enfática, consolatoria” que, segundo ele, pouco tem a ver com a complexidade cultural napolitana. A comparação histórica com Modugno, vencedor de Sanremo em 1958, serve para sublinhar o contraste entre uma canção do Sul que era moderna e popular, e o que Cazzullo considera uma peça estereotipada apresentada este ano.
O comentário do vicediretor também funciona como uma pequena genealogia da canção napolitana: cita o cinema de Totò, o teatro de Eduardo, e até a memória coletiva projetada pela discografia e pelo palco, numa leitura que transforma a controvérsia em um debate sobre identidade cultural. “Ho qualche dubbio che rimarrà ‘Per sempre sì'”, conclui Cazzullo, antecipando um destino fugaz para a canção vencedora.
Essa disputa não é apenas uma briga crítica sobre gostos musicais: é um ponto de encontro entre memória, representação e poderes simbólicos — o roteiro oculto da sociedade que se revela cada vez que uma canção é alçada a símbolo. A reação a Per sempre sì sugere que, no espelho do nosso tempo, o palco de Sanremo continua a ser um campo onde se reescrevem velhas narrativas e se testam novos paradigmas de pertença cultural.
Enquanto as redes fervilham e as colunas se estendem, fica a pergunta que corta o ruído: o que torna uma canção legítima “napolitana”? A resposta, como muitas questões de identidade, parece inscrita entre tradição e invenção — e é aí que mora toda a polêmica.





















