Por Chiara Lombardi — O cinema, muitas vezes, é o espelho do nosso tempo: reflete medos, rituais e a aura de um mundo que se redesenha. Em Agata Christian – Delitto sulle nevi, dirigido por Eros Puglielli, esse espelho ganha fissuras e reflexos cômicos. O filme reúne no elenco Christian De Sica, Lillo Petrolo e Paolo Calabresi, e estreia em 5 de fevereiro em 500 salas pela Medusa Film.
Na trama, Christian De Sica interpreta Christian Agata, um criminólogo célebre e cáustico chamado para ser rosto da reedição do jogo de tabuleiro Crime Castle. O evento acontece na imponente villa valdostana dos Gulmar, família poderosa do mercado de jogos. Ao lado de Agata estão o brigadiere Vanni Cuozzo (interpretado por Lillo Petrolo), fã incondicional e policial de bom coração, e Candido Tarda, o apontado dos Carabinieri que é braço-direito de Cuozzo.
O conflito familiar explode quando o patriarca Carlo Gulmar (Giorgio Colangeli) decide retomar o controle da empresa e frustra a venda anunciada à start‑up Shothouse, cujo CEO é o enigmático One Shot, vivido pelo trapper Tony Effe. Uma avalanche isola o castelo e, pouco depois, Carlo é encontrado assassinado em uma cena que mistura o macabro ao teatral. Sem comunicação com o exterior, Agata, Cuozzo e Tarda precisam investigar uma teia de rancores, segredos e olhares cruzados.
Na apresentação em Roma, o diretor Eros Puglielli explicou sua ambição: “Sou fã da comédia e dos derivados do crime. Percebi que dentro do giallo sempre existe a possibilidade do ridículo; a comicidade está ali, a um passo, e é preciso saber contê‑la”. Puglielli fala da montagem do suspense como motor também da comicidade — um verdadeiro reframe da narrativa que transforma tensão em riso.
De Sica define o filme como um «dramedy», gênero que, segundo ele, é inédito em termos de mistura entre o cômico e o giallo no panorama italiano recente. Em tom provocador e reflexivo, aborda ainda o tema do politicamente correto: “O politicamente incorreto pode ser feito, desde que com inteligência. E o do Checco Zalone é”. Sobre o sucesso de “Buen Camino”, comenta com ironia: “Speriamo che dopo Zalone sia rimasto qualche euro pure per noi” — uma observação que é ao mesmo tempo piada e diagnóstico de mercado.
O debate se estende com Lillo, que lembra que o politicamente incorreto é também um espelho do cotidiano: “Significa contar o que acontece na vida real, porque a vida às vezes é escorreita. Se não posso narrar isso pela via da comicidade, há um problema”. A turma do set ainda colecionou peripécias: De Sica relatou uma sequência quase cinematográfica — ele e Lillo, à la Tom Cruise, dispensaram dublês e no primeiro dia caíram num crepaccio.
Agata Christian promete ser um exercício de estilo entre gêneros: o roteiro oculto da sociedade é exposto em camadas, onde o humor e o suspense se respondem como notas de uma trilha sonora. Com figuras do drama — herança, ambição, família — e o verniz pop do trapper no papel inesperado de CEO, o filme quer provocar mais do que entreter; quer instigar o público a ler a comédia como comentário social.
Estreia em 5 de fevereiro com distribuição da Medusa Film. Um convite a observar o riso como máscara e a investigação como espelho: o cinema contemporâneo, aqui, volta a lembrar que divertir também é uma forma de pensar.






















