Por Chiara Lombardi — Em um comentário que mistura sermão político e análise cultural, o presidente do Popolo della Famiglia, Mario Adinolfi, aproveitou a Giornata della Memoria para lançar uma crítica dura ao Festival di Sanremo e ao curador do palco, Carlo Conti. Em entrevista à Adnkronos, Adinolfi questionou as escolhas do cast do festival e convocou uma reflexão sobre o que, na sua leitura, seria um padrão de posicionamentos e identidades no showbiz italiano.
“Leio que Levante não iria ao Eurovision em Viena porque ‘foi convidado Israel’ e que vários países boicotariam por classificar Israel como ‘Estado genocida’”, disse Adinolfi, ampliando a crítica para a seleção de artistas em Sanremo. Segundo ele, o festival, que já projetou nomes como Mahmood e Ghali, teria agora entre os escolhidos um repertório com forte conotação pró-Palestina: “Ermal Meta cantará uma canção pró-Pal sobre Gaza e o desconhecido ítalo-tunisino Sayf ocuparia a ‘quota islâmica’ entre os big”.
Adinolfi ainda afirmou que “não aparecem convites de Carlo Conti a cantores judeus”, lembrando artistas com raízes judaicas que fizeram história no festival, como Enrico Ruggeri e Elio delle Storie Tese. Em suas declarações, ele equacionou conceitos extremos: “O novo nazismo está aqui e se chama islamismo; o novo antisemitismo é o ódio por Israel”.
Ao trazer outros episódios do debate público, o presidente do Popolo della Famiglia citou a opinião de Noemi Di Segni, presidente das comunidades judaicas, sobre a participação de Ghali como atração de abertura dos Jogos Olímpicos de Cortina. Di Segni teria manifestado o desejo de que o artista tivesse recebido diretrizes claras sobre seu papel. Para Adinolfi, a reação do Partido Democrático — que reagiu à ideia com acusações de “censura preventiva” — é inconsistente frente a outras escolhas culturais e políticas, como a presença de atletas iranianos, representantes de um regime que, segundo ele, reprimiu violentamente manifestações internas.
Continuando a tecer sua crítica, Adinolfi enfatizou que, na sua visão, há uma seletividade moral: “Nenhuma reação a líderes como Khamenei, mas discursos inflamados contra Israel”. Ele citou ainda acontecimentos trágicos do conflito e lembrou, em tom de cobrança, que “Auschwitz vocês esqueceram”, finalizando com uma ironia amarga dirigida ao Dia da Memória.
Como observadora cultural, vejo neste episódio um espelho do nosso tempo: o palco do entretenimento funciona como um território simbólico onde se encenam memórias, lealdades e conflitos internacionais. As escolhas do festival e as reações políticas revelam um roteiro oculto — a semiótica do viral — em que artistas não só interpretam canções, mas se tornam vetores de narrativas históricas e identitárias.
Importante notar: as frases aqui reproduzidas são declarações atribuídas a Mario Adinolfi. Elas sintetizam sua leitura e posicionamento político e cultural e geram debate legítimo sobre liberdade artística, memória histórica e as fronteiras entre crítica política e discurso de ódio. Cabe ao público e aos curadores de eventos como Sanremo refletir sobre qual tipo de história querem representar no grande palco da cultura popular.






















