Por Chiara Lombardi — No palco do Ariston, Achille Lauro transformará a música em ato público de memória: segundo anunciou Carlo Conti em conferência de imprensa, o artista romano apresentará dois momentos musicais que mesclam dor, celebração e reinvenção. Primeiro, um tributo às vítimas da tragédia de Crans-Montana, interpretando Perdutamente, canção que ganhou significado particular quando foi cantada pela mãe de Achille Barosi — um jovem de 16 anos que morreu no incêndio — ao lado do caixão do filho. Em seguida, Lauro dividirá o palco com Laura Pausini em 16 Marzo, um dueto anunciado como um dos pontos altos da programação.
O momento em que a mãe de Achille Barosi entoou a música diante do cortejo fúnebre não foi apenas um episódio de visibilidade: tornou-se um espelho do nosso tempo, um roteiro oculto que desloca a performance para a esfera do luto coletivo. Diante dessa imagem, a direção artística do Festival optou por alterar a programação — originalmente Lauro apresentaria “Incoscienti Giovani” — e convidou-o a aceitar a mudança. O gesto revela como a cena pública da música pode reconfigurar sentidos e circulação de afetos em tempo real.
Perdutamente, escrita com Matteo Ciceroni, Daniele Nelli, Federica Abbate e Simon Pietro Manzari, concentra-se na fragilidade humana. A letra delineia um amor obsessivo que deixa a pessoa desorientada, ao mesmo tempo em que trava um diálogo com o medo da efemeridade: a noção de que tudo pode terminar num instante. Musicalmente e poeticamente, a canção se apresenta como uma meditação sobre a vulnerabilidade — e, nesse contexto, ganha um estatuto quase litúrgico quando entoada pela mãe enlutada.
O dueto com Laura Pausini será em 16 Marzo, single de 2020 presente em “1969 – Achille Idol Rebirth”. Trata-se de uma carta musical sobre um amor tormentado, destrutivo e encerrado — um hino ao fim como condição de renascimento. A simbologia da fênix, presente na capa do single, remete ao tema da resiliência: ressurgir das próprias cinzas, a ideia de catálise emocional que precede a primavera, metáfora de recomeço.
Vale lembrar que, como lembrou Carlo Conti, o dia 16 de março tem outra ressonância festiva: será a data do aniversário de 105 anos de Gianna Pratesi, convidada de honra da primeira serata, figura viva que conecta memórias individuais às escolhas institucionais da República. A coincidência amplifica o efeito de camadas temporais que o festival provoca — história privada, história pública, e o eco cultural que atravessa ambos.
Além das performances, Achille Lauro estará presente no Ariston como co-condutor na segunda serata do Festival 2026. Essa articulação entre fazer artístico e assumir posto de presença televisiva reforça o papel contemporâneo do artista como mediador emocional e narrativo: quem comanda o palco também desenha o refrão coletivo de um país por algumas noites.
O dueto de 16 Marzo acompanha ainda a participação da faixa no álbum “Io Canto 2” de Laura Pausini, projeto que é, em si, um tributo aos grandes compositores e intérpretes da canção italiana. A união das vozes sinaliza, portanto, mais que uma colaboração pop: é um encontro entre trajetórias que transforma a canção em dispositivo de memória e de possível cura.
Em suma, o número preparado por Lauro no Festival não é apenas um número musical; é um pequeno ritual público onde a canção funciona como testemunha e testemunho — o palco, um centro de reframe da realidade em que a arte tenta nomear a perda e propor alguma forma de continuidade.





















