Por Chiara Lombardi — Observando o roteiro público com o olhar crítico de quem analisa não só o entretenimento, mas o espelho cultural que ele projeta, o professor Lorenzo Coveri, da Accademia della Crusca, publicou nas redes sociais as notas dos textos das canções desta edição do Festival di Sanremo. O balanço é seco: muitos 6 e 5,5, nenhuma excelência, e uma sensação dominante de média — uma prudência formal que lembra, nas palavras do acadêmico, o estilo típico de Carlo Conti.
“Nunca, lendo un verso, ho sobbalzato sulla sedia. Mai.” A confissão resume um diagnóstico editorial: falta aquele verso que nos arranca do lugar, a frase que reencena um corte de cena e redefine a narrativa da música pop. Em vez disso, prevalece um repertório de fórmulas consolidadas — inversões estilísticas, rimas em monosílabos e um léxico por vezes aulico-retórico — agora, por vezes, ironizado pelo próprio uso.
Coveri destaca que, ao menos, há sinais de abertura geracional: a influência de plataformas como TikTok e Instagram está presente, e a velha canção feita sob medida para Sanremo parece, nesta edição, ter morrido. Contudo, o que surge em seu lugar não é necessariamente uma nova literatura musical: são textos que oscilam entre a intenção de falar ao público jovem e a segurança da convenção.
Entre os nomes em competição, Dargen D’Amico e Ermal Meta aparecem como quem tenta olhar além dos temas recorrentes do casal: são os artistas que, segundo Coveri, aventuram-se fora da bolha da relação amorosa — ainda que Dargen, em comparação com trabalhos anteriores, pareça ter atenuado sua ironia e seu engajamento.
Em especial, o acadêmico elogia a canção de Ermal Meta — uma ninna nanna dirigida a uma criança de Gaza — como um dos poucos textos que escapa ao conformismo e toca uma dimensão ética e simbólica mais ampla. É um exemplo de como a música pode funcionar como refrão civil, um reframe do real que projeta empatia para além do palco.
Há também elogios pontuais: Fulminacci recebe destaque por um texto que ganha contornos quase cinematográficos — a imagem de perder as chaves de casa como metáfora do desamparo e do tempo como um “monte de segundos” foi marcada pelo professor com entusiasmo moderado. Patty Pravo, por sua vez, apresenta um texto ambicioso assinado por Caccamo, que chega a citar a Ilíada, e se defende dignamente.
Outros nomes, como Enrico Nigiotti e Tredici Pietro (filho de Gianni Morandi), transitam entre a canção d’autore modernizada e um urbanismo metafórico cujo efeito nem sempre convence. A avaliação geral: textos que se mantêm no terreno do “dignitoso”, raramente no do memorável.
Comparando com o ano anterior — quando figuras como Brunori e Lucio Corsi trouxeram uma assinatura autoral mais forte —, esta seleção parece menos inclinada à invenção textual. A consequência é uma edição de Sanremo que reflete um certo conservadorismo estético, uma mediazione que busca agradar sem se comprometer com vozes autorais mais arriscadas.
Como analista cultural, penso que este Sanremo funciona como um espelho do nosso tempo: há tentativas de conectar com novas audiências e uma superficial abertura temática, mas faltam, em boa parte, os cortes narrativos que transformam um refrão em memória coletiva. Ainda assim, nomes como Ermal Meta e Dargen D’Amico demonstram que, mesmo num cenário de prudência generalizada, é possível vislumbrar o roteiro oculto da mudança.
Para leitores e ouvintes, o convite é ficar atentos aos detalhes: muitas vezes, numa linha aparentemente simples, jaz o refrão que pode ressoar além do festival — e é aí que a canção assume o papel verdadeiro de eco cultural.






















