Por Chiara Lombardi — Na nova paisagem televisiva de Westeros, A Knight of the Seven Kingdoms chega como um espelho mais contido do grande épico. Disponível no HBO Max com um episódio por semana até 23 de fevereiro, o spin-off já foi renovado para uma segunda temporada e amplia, ao lado de House of the Dragon, o universo criado por George R.R. Martin. Mas quais são exatamente os fios que ligam essa história às duas séries que a precederam?
Tempo, geografia e o pulso político de Westeros
A Knight of the Seven Kingdoms se passa no mesmo continente imaginário — de Porto Real a Winterfell —, mas em um recorte temporal distinto: aproximadamente 100 anos antes dos eventos de O Trono de Espadas e cerca de 90 anos após House of the Dragon. É um exercício de proxemia narrativa: o mapa permanece, mas a câmera baixa para o nível das ruas, dos torneios e dos caminhos secundários.
Dragões, Targaryen e a memória do fogo
Ao contrário de House of the Dragon, onde os dragões são onipresentes e símbolo do poder absoluto dos Targaryen, neste novo prequel os dragões já se encontram extintos há décadas — uma cicatriz silenciosa sobre o passado da dinastia. Ainda assim, a família Targaryen está no centro das tramas: relações de parentesco e heranças dinásticas estabelecem conexões diretas com os grandes nomes que conhecemos de O Trono de Espadas.
Do alto do castelo para a sela: perspectiva humana
A grande diferença de tom é proposital. George R.R. Martin e o showrunner Ira Parker optam por nos colocar no campo de visão de personagens que não decidem o destino do mundo. Como Martin disse em coletiva, aqui queremos ver Westeros pelo avesso, «do baixo»: é a visão de quem caminha, serve e observa. Esse reframe transforma a série num estudo de micro-histórias, onde batalhas pessoais e pequenos torneiros contam tanto quanto guerras de tronos.
Personagens e heranças: Dunk e Egg
Os protagonistas são o escudeiro jovem Egg — que se revelará como o futuro Aegon Targaryen — e o cavaleiro errante Ser Duncan, o Alto (Dunk). Juntos, viajam pelo reino, participam de torneios e se envolvem em incidentes que revelam a estrutura social de Westeros longe do centro do poder. Esse arco é baseado em The Hedge Knight, a primeira das novelas de Martin sobre Dunk e Egg, e privilegia um tom mais simples e direto em relação ao peso mítico das outras séries.
Antagonismos e ecos do passado
O antagonista mais visível nesta temporada é Aerion Brightflame, filho de Maekar Targaryen — que por sua vez é filho do rei Daeron II e irmão de Baelor. A dinâmica entre casas antigas como Stark, Lannister e Baratheon reaparece em papéis de lordes e cavaleiros, lembrando ao espectador que a continuidade das linhagens é o roteiro oculto que move Westeros.
O que fica e o que muda: semiótica do viral e memória coletiva
Se House of the Dragon foi a exaltação do fogo e do palco régio, A Knight of the Seven Kingdoms funciona como um contraponto: a câmera pousa no cotidiano, e os grandes nomes aparecem como sombras ou genealogias. É um convite a olhar o universo de Martin como um cenário de transformação, onde o que está ausente — dragões, por exemplo — é tão eloquente quanto o que vemos.
Para além da mitologia, a série opera como um estudo de identidade e memória: como as decisões de governantes reverberam nas pequenas vidas que cruzam estradas e campos de justa. Em termos práticos, é também uma porta de entrada menos imponente para quem quer começar a se aventurar por Westeros sem o peso de uma guerra total.
Conclusão: A Knight of the Seven Kingdoms é ao mesmo tempo uma homenagem e uma reinterpretação do universo de Martin — uma narrativa que nos pede para baixar a lente e ouvir os sussurros das estradas. Como observadora cultural, vejo nela um eco contemporâneo: a ampliação do ponto de vista que transforma mitos em tecido social, e o transforma numa peça importante para entender o Trono de Espadas como fenômeno cultural.






















