Em cada canto da Itália, quando o frio do inverno se instala e as luzes do Natal começam a se apagar, uma história suave e melancólica começa a ganhar vida nas casas e praças: a história da Befana, a senhorinha que voa sobre os telhados na noite da Epifania.
Ela era trabalhadora e cuidadosa , mas também muito solitária. Passava os dias cuidando da sua casa e das suas tarefas, sem perceber que algo faltava em sua vida: um momento de verdadeira conexão, de propósito maior.
Um dia, os Três Reis Magos passaram por sua porta, procurando o caminho para o menino Jesus, recém-nascido. Eles pediram sua ajuda e a convidaram para acompanhá-los, levando presentes para o bebê. Mas ela recusou. “Tenho muito trabalho a fazer”, disse, e voltou para sua rotina, sem imaginar que aquele pequeno gesto mudaria sua vida para sempre.
Quando os Reis se foram, o arrependimento tomou conta dela. Um peso silencioso, profundo, fez seu coração doer. Então, pegou alguns presentes doces, brinquedos simples e saiu em busca do menino Jesus, com esperança de encontrá-lo e entregar os presentes pessoalmente. Mas, por mais que procurasse, nunca conseguiu achá-lo.
Desde então, a mulher se transformou na Befana, a velha que voa pela Itália na noite entre 5 e 6 de janeiro. Ela passa por cidades e vilarejos, entra pelas chaminés e deixa presentes para as crianças doces, brinquedos, e às vezes um pouco de carvão. Não é para punir, mas como lembrança de que nem sempre acertamos e de que o tempo passa.
A Befana voa sozinha, silenciosa, carregando sua saudade e seu arrependimento. Cada presente que deixa é uma tentativa de se redimir, de corrigir um erro que nunca poderá desfazer. Ela continua procurando, porque em algum lugar, acredita, uma criança pode ser o menino Jesus que nunca encontrou.
A lenda é antiga e vem de tempos ainda antes do cristianismo. Os romanos já celebravam o fim do ano e o começo de um novo ciclo, com rituais que lembravam o que termina e o que renasce. A velha simbolizava o ano que morria, e os presentes representavam a esperança de um novo começo. Com o tempo, a Igreja cristianizou a figura, e a Befana passou a ser a viajante da Epifania, a mulher que traz generosidade e esperança em sua solidão.
A Aparência da Befana
A famosa cantiga popular italiana resume bem sua imagem:
“A Befana vem à noite, com os sapatos todos gastos, com o chapéu à romana, viva, viva a Befana!”
A velhinha usa um vestido escuro e largo, um avental com bolsos, um xale e um lenço ou chapéu na cabeça, muitas vezes decorado com remendos coloridos, refletindo sua aparência humilde e simples, mas cheia de personalidade.
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Hoje, a Befana continua viva na imaginação de todos. Ela nos lembra que os erros não podem ser sempre consertados, mas podem ser lembrados com carinho. Que mesmo na solidão, é possível continuar tentando fazer o bem. Que, mesmo em gestos pequenos, existe magia e amor.
A Befana é muito mais que uma lenda infantil. Ela representa a passagem do tempo, o arrependimento e a esperança de reparar erros, mas também a riqueza cultural da Itália, capaz de transformar velhas tradições em celebrações vivas. E assim, todas as noites de Epifania, a Befana voa. Uma velhinha em sua vassoura, carregando doces, memórias e arrependimentos, atravessando o frio do inverno italiano. Ela nos ensina que nunca é tarde para tentar de novo, e que a bondade verdadeira vem de quem tem coragem de procurar, mesmo depois de errar.


































