O Brasil é um país formado por muitas vozes.As línguas passam por processos de mudança, muitas vezes, em decorrência da difusão de traços linguísticos no interior de grupos de fala que entram em contato com outras comunidades linguísticas. A aproximação e a convivência entre duas ou mais comunidades falantes de línguas distintas podem resultar na incorporação de novos elementos estruturais, lexicais e fonológicos, promovendo transformações nas línguas envolvidas.
Pluralidade Linguística e Patrimônio Cultural
O bilinguismo e/ou o multilinguismo tendem a se estabelecer, possibilitando o surgimento de situações bidialetais variadas. Esse é o caso do talian, uma língua de base vêneta que se desenvolveu a partir do contato entre os dialetos da região do Vêneto, na Itália, e o português falado no sul do Brasil. O Talian, uma língua que carrega histórias de migração, trabalho, afeto e pertencimento. Falado principalmente no Sul do Brasil, o Talian foi oficialmente reconhecido como Patrimônio Cultural do Brasil pelo IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), um marco importante para a valorização da diversidade cultural brasileira.
Esse reconhecimento não diz respeito apenas a uma língua, mas a toda uma herança cultural construída ao longo de gerações. Embora o Brasil tenha a língua portuguesa como idioma oficial, conforme estabelecido pela Constituição Federal de 1988, em seu artigo 13, e seja frequentemente percebido como um país monolíngue, essa visão se mostra incoerente quando se desconsidera a existência de diversos grupos étnicos minoritários e de suas respectivas línguas, especialmente na região Sul do país.
Altenhofen (2005, p. 87) chama a atenção para o fato de o Brasil se autodefinir como “monolíngue”, apesar de sua ampla diversidade linguística e da presença de inúmeras línguas minoritárias em seu território. Segundo o autor:
“Sem dúvida, a imagem do Brasil como um enorme país ‘monolíngue’, dominado pelo português em toda a sua extensão, de proporções continentais e — o que é mais surpreendente — de uma forma ‘tão homogênea’, tem contribuído, em maior ou menor grau, para ofuscar a presença de populações e áreas bilíngues oriundas da imigração. A ideia de ‘um Brasil com uma única língua’ parece tão forte que até mesmo o falante bilíngue, membro de uma comunidade onde convivem lado a lado com o português uma ou mais línguas de adstrato, é capaz de rotular o país como ‘monolíngue’, sem perceber a evidência concreta de seu equívoco” (ALTENHOFEN, 2005, p. 87).
O autor acrescenta que essa concepção pode estar relacionada ao contexto histórico das Guerras Mundiais, período em que o uso da língua portuguesa passou a ser entendido como condição essencial para a afirmação da identidade nacional, sendo o ensino do português associado à ideia de civilidade e integração social.
Dados do Atlas Linguístico-Etnográfico da Região Sul do Brasil (ALERS) (KOCH; KLASSMANN; ALTENHOFEN, 2002) evidenciam a diversidade linguística da região, registrando a presença de línguas europeias não lusófonas trazidas por imigrantes ao longo do século XIX e início do século XX, como alemães (a partir de 1824), italianos (1875), poloneses (1891) e japoneses (1918), entre outros.
Margotti (2004) destaca que esses colonos se estabeleceram, em sua maioria, em áreas inicialmente cobertas por florestas, sobretudo nos estados do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina. Com base em Koch (2000), o autor explica que o processo de desbravamento e ocupação territorial se estendeu posteriormente a outras regiões, incluindo o Paraná, que também se tornou espaço de significativa presença de comunidades de origem imigrante.
O que é o Talian?
O Talian é uma língua de base vêneta, formada a partir dos dialetos falados no norte da Itália especialmente da região do Vêneto, trazidos ao Brasil por imigrantes italianos a partir da segunda metade do século XIX. Ao chegar ao país, esses dialetos entraram em contato com o português e com outras línguas locais, dando origem ao que hoje conhecemos como Talian.
Mais do que uma simples variação linguística, o Talian é o resultado de um processo vivo de adaptação, resistência e convivência cultural.
Onde o Talian é falado?
Atualmente, o Talian é falado principalmente em comunidades do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, mas também pode ser encontrado em outras regiões onde houve forte imigração italiana. Ele sobrevive, sobretudo, no ambiente familiar, nas conversas do dia a dia, em festas comunitárias, músicas, expressões populares e tradições orais.
Para muitas famílias, o Talian é a língua dos avós, das memórias da infância e da vida no campo.
Mais de 60% dos imigrantes italianos que se estabeleceram no Rio Grande do Sul eram portadores da língua e da cultura vênetas. Em razão disso, o dialeto vêneto passou a funcionar, inicialmente, como língua franca entre famílias oriundas de diferentes regiões e falantes de distintos dialetos italianos. Com o tempo, esse dialeto sofreu transformações significativas ao entrar em contato com a língua portuguesa, dando origem a uma nova língua, denominada talian.
A colonização do oeste do Paraná ocorreu apenas no século XX e, por esse motivo, pode ser caracterizada como um processo de colonização moderna. Compreender a influência italiana em Cascavel implica analisar de que forma os colonos ali estabelecidos enfrentaram desafios e lutaram pela preservação de sua cultura, especialmente considerando que a colonização da cidade não se deu de maneira homogênea, como ocorreu em outras localidades da região.
Segundo Luzzatto (1994), o talian está presente em diversas cidades dos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, incluindo o município de Cascavel. Diante disso, pretende-se, a partir da observação de manifestações culturais e linguísticas de determinados grupos de descendentes de italianos em Cascavel, evidenciar a relevância do estudo sobre a manutenção da língua e da cultura italiana no contexto local.
Ainda que de forma restrita, o talian continua sendo utilizado e pode ser considerado uma língua viva. Essa vitalidade é comprovada pela presença de descendentes de italianos e por iniciativas culturais no município, como o Círculo Italiano de Cascavel, o grupo de dança folclórica italiana Ladri di Cuori, o grupo de canto Filó e o programa de rádio Italia del Mio Cuore.
O reconhecimento pelo IPHAN
Em 2014, o IPHAN reconheceu o Talian como Referência Cultural Brasileira, registrando-o como Patrimônio Cultural Imaterial. Esse reconhecimento tem um valor simbólico e prático muito importante: ele afirma que o Talian faz parte da identidade nacional e merece ser preservado, estudado e transmitido.
Durante muitos anos, línguas de imigração foram desvalorizadas ou até reprimidas, especialmente em períodos de forte nacionalização. O reconhecimento do Talian representa também um gesto de reparação histórica e de valorização da pluralidade cultural do Brasil.
Por que preservar o Talian?
Preservar o Talian é preservar histórias. Cada palavra carrega traços da experiência dos imigrantes italianos, de seu cotidiano, de suas crenças, de sua relação com a terra e com a comunidade. Quando uma língua desaparece, perde-se também uma forma única de ver e interpretar o mundo.
A preservação envolve ações como:
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incentivo ao ensino e à pesquisa da língua;
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registros escritos, audiovisuais e musicais;
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valorização do uso do Talian em eventos culturais;
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transmissão intergeracional dentro das comunidades.
Talian: passado, presente e futuro
O reconhecimento do Talian como Patrimônio Cultural do Brasil não o transforma em algo estático ou apenas do passado. Pelo contrário: ele reforça a ideia de que o Talian é uma língua viva, que continua se transformando e encontrando novos espaços.
Hoje, o Talian também aparece em projetos educacionais, produções culturais, iniciativas acadêmicas e até nas redes sociais, mostrando que tradição e contemporaneidade podem caminhar juntas.
Um patrimônio que fala de identidade
Reconhecer o Talian é reconhecer que o Brasil é feito de muitas histórias entrelaçadas. É afirmar que a identidade brasileira não é única, mas plural, construída a partir de encontros, deslocamentos e memórias.
Mais do que uma língua, o Talian é um símbolo de pertencimento um elo entre o Brasil e a Itália, entre o passado e o presente, entre a memória familiar e o patrimônio coletivo.






















