Não se trata apenas de estética: a cor da capa do seu passaporte costuma refletir escolhas políticas, afinidades regionais e motivos culturais. Por que o documento italiano é bordeaux, enquanto o americano é quase azul escuro? A resposta vai além do gosto do designer.
Existe uma autoridade técnica que padroniza muitos aspetos dos documentos de viagem a Organização Internacional da Aviação Civil (ICAO) —, que define medidas, materiais capazes de resistir a temperaturas de -1 a 50 °C, requisitos para microchips biométricos e sistemas anti-fraude. Mas, curiosamente, a ICAO não impõe uma cor obrigatória: cada Estado escolhe a própria tonalidade. Ainda assim, a maior parte dos países opta por cores escuras, por serem percebidas como mais elegantes e menos propensas a mostrar sujeira.
As escolhas tendem a agrupar-se em quatro grandes famílias cromáticas, cada uma com significados distintos:
- Bordeaux — É a cor do passaporte italiano (RAL 4004) e foi adotada por vários países europeus a partir de 1981 na busca por uma identidade comum. O tom bordô tornou-se um símbolo de pertença à União Europeia: houve Estados candidatos que alteraram a cor do documento para o vermelho em sinal de aproximação política, como ocorreu em tentativas de aproximação à UE.
- Azul — Utilizado por países do Mercosul (como Brasil e Argentina) e pelos Estados Unidos, que mudaram para o tom em 1976 em referência ao azul da bandeira nacional. O caso do Reino Unido é emblemático: após a saída da UE, Londres substituiu o bordô europeu pelo tradicional azul-escuro como gesto simbólico de reafirmação de independência política.
- Verde — Predomina em Estados de maioria muçulmana (Arábia Saudita, Paquistão, Marrocos), em que o verde tem conotações religiosas e históricas — é tradicionalmente associado ao Profeta Maomé e simboliza vida e natureza. O verde também aparece em passaportes de blocos regionais, como os países da CEDEAO (ECOWAS), indicando coesão económica regional.
- Preto — A cor menos comum. Nações como o Chade ou a Nova Zelândia utilizam capas pretas; no caso neozelandês, o preto é cor nacional (pense nos All Blacks). Com frequência, o preto é adotado por passaportes diplomáticos, cujo tom reforça funcionalidade e distinção dos documentos que conferem privilégios oficiais.
O passaporte italiano, regulado pelo Decreto Ministerial de 2005, exemplifica como um documento pode combinar identidade cultural e segurança tecnológica. No interior, páginas trazem motivos gráficos alusivos ao Colosseo, enquanto a página de dados é produzida em policarbonato e incorpora fios fluorescentes, microtextos e elementos que reagem à luz ultravioleta — medidas que tornam a falsificação extremamente difícil. A capa em bordeaux com inscrições douradas e o brasão da Repubblica Italiana completam o conjunto.
A cor do passaporte pouco tem a ver com moda e muito com simbolismo e estratégia: escolhas que comunicam laços regionais, referências culturais ou simplesmente funcionalidade. Saber decifrar essas cores é um pequeno exercício de geopolítica cotidiana.































