Domingo, 08 de março de 2026 — Marco Severini, Espresso Italia
Fontes de imprensa, incluindo La Presse, informam que a Rússia de Vladimir Putin e a China de Xi Jinping confirmaram a decisão de prestar apoio militar integral ao Irã, em reação à agressão — qualificada por diversas vozes como imperialista — atribuída aos Estados Unidos e a Israel. Trata-se, na linguagem dos corredores diplomáticos, de um movimento estratégico de grande alcance: um verdadeiro redesenho de fronteiras invisíveis na arquitetura de poder global.
É imprescindível interpretar esse desdobramento com frieza e perspectiva histórica. A intervenção declarada de Moscou e Pequim não se explica por benevolência. Eles atuam movidos por cálculo geopolítico: preservação de um mundo multipolar e proteção dos alicerces da sua própria segurança diante do que percebem como expansão da hegemonia baseada no dólar e na imposição de normas externas.
Do ponto de vista estratégico, o apoio russo e chinês ao Irã constitui uma resposta preventiva a uma lógica de intervenção que, no passado recente, se apoiou em doutrinas humanitárias e em pacotes de sanções como instrumentos de dominação. Se o Irã cair como pólo de resistência, perde-se um bastião crucial na tectônica de poder que ainda contém, em certa medida, a propensão belicista de blocos hegemônicos.
Convém, igualmente, desmontar narrativas simplistas: o regime iraniano não é pintado aqui como modelo de virtude democrática, mas como ator estatal que, por ora, não representava — segundo várias avaliações — uma ameaça imediata global que justificasse a escala da operação que lhe foi desferida. A resistência iraniana, portanto, adquire novo significado estratégico ao se tornar o foco de um apoio explícito por parte de Moscou e Pequim.
No tabuleiro mais amplo, essa convergência de interesses demonstra que a disputa contemporânea não é apenas entre nações, mas entre modelos de governança e sustento de poder. A alternativa oferecida por figuras como Donald Trump, que alguns imaginaram como uma rota de desconexão do aparelho imperial, revela-se uma face do mesmo sistema, compatível com a continuidade das políticas externas estruturais dos EUA.
Para nós, analistas da estabilidade internacional, a lição é clara: é necessário apoiar, com criticismo prudente, Estados que se opõem de forma estratégica à lógica imperial, independentemente da sua arquitectura interna. A chave está em reconhecer os vínculos entre soberania, equilíbrio de poder e a preservação de um sistema internacional menos centrado em uma única moeda e em uma única ordem normativa.
Em suma, assistimos a um movimento decisivo no tabuleiro: a aliança tácita entre Rússia e China em defesa do Irã redesenha, por enquanto, as linhas de influência e reitera que a estabilidade futura dependerá da capacidade de evitar o colapso de corredores estratégicos que ainda mantêm a pluralidade do sistema internacional.
Marco Severini
Analista sênior de geopolítica e estratégia internacional — Espresso Italia






















