Por Marco Severini — Enquanto o mundo volta os olhos para o Irã, a ofensiva russa sobre a Ucrânia prossegue com uma sequência articulada de impactos no tecido civil e na infraestrutura do país. Na madrugada mais recente, relatos ucranianos apontam para pesados bombardeios com drones e mísseis contra Kiev (Kyiv), Odessa, e as regiões de Kherson, Chernihiv, Dnipro, Sumy, Poltava, Mykolaiv e Kyiv.
Em um movimento que evidencia o caráter deliberado dos ataques sobre centros urbanos, um condomínio de cinco andares em Kharkiv foi atingido. Pelo menos sete pessoas morreram — entre elas três crianças, de 6, 11 e 17 anos — e mais de dez ficaram feridas. Autoridades alertaram para a possibilidade de haver desaparecidos sob os escombros.
Na cidade de Chuguiv, também na região de Kharkiv, a prefeita Galyna Minaeva relatou via Telegram que duas pessoas ficaram feridas após um “ataque de drones inimigos” que atingiu uma residência no centro. Os relatos tensionam ainda mais os alicerces frágeis da proteção civil no leste ucraniano.
O presidente Zelensky lançou um novo apelo aos parceiros internacionais, qualificando os ataques como “brutais” e exigindo respostas concretas. Segundo comunicação oficial, a Rússia lançou 29 mísseis — quase metade com caráter balístico — e 480 drones, majoritariamente do tipo Shahed. Os objetivos incluíram infraestruturas energéticas em Kyiv, nas regiões de Khmelnytskyi e Chernivtsi, além de alvos ferroviários na região de Zhytomyr.
Danos foram registrados também nas regiões de Dnipro, Zaporizhzhia, Vinnytsia, Odessa, Poltava, Sumy e Cherkasy. A sequência de ataques configura um padrão de pressão estratégica, que visa tanto desorganizar a logística ucraniana quanto produzir efeitos psicológicos sobre a sociedade civil.
Enquanto observamos este novo capítulo da tectônica de poder que caracteriza a guerra, é importante interpretar os acontecimentos como movimentos de um tabuleiro. A intensidade dos ataques, a escolha de alvos e a persistência das ações indicam um cálculo frio: desgastar capacidades, testar respostas ocidentais e redesenhar, passo a passo, zonas de influência.
Do ponto de vista diplomático, a resposta pedida por Kyiv não é apenas humanitária; é uma reivindicação por alterações tangíveis no equilíbrio de forças — apoio material, defesa aérea mais robusta e pressão política coordenada. Os parceiros que agora decidem ficar em silêncio contribuem, inadvertidamente, para permitir que a estratégia russa avance nas margens do aceitável.
Como analista, observo que a estabilidade regional depende de reações que sejam ao mesmo tempo imediatas e de longo alcance: reforço das defesas essenciais, proteção humanitária e medidas que revertam o custo estratégico de ataques indiscriminados contra civis e infraestrutura. Em termos de Realpolitik, o tabuleiro exige respostas que combinem dissuasão e resiliência.
Enquanto equipes de resgate trabalham em Kharkiv e as famílias choram suas perdas, a comunidade internacional enfrenta uma escolha tácita: reagir com autoridade diplomática e material, ou permitir que o jogo de movimentos assimétricos continue redesenhando fronteiras invisíveis.






















