Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
Na abertura esportiva das Paralimpíadas Milano Cortina 2026, a Itália conquistou a primeira medalha graças à performance de Chiara Mazzel no esqui alpino. A atleta, guiada por Nicola Cotti Cottini, terminou a prova feminina de descida com a medalha de prata, a 0″48 da austríaca Veronika Aigner, que levou o ouro com 1’22″55. Em terceiro lugar, ficou a eslovaca Alexandra Rexova, enquanto Martina Vozza finalizou em quinto, a 7″99 da líder.
Depois da prova, Mazzel comentou com sobriedade e reconhecimento do peso do momento: “É realmente um grande sonho, estou feliz com como foi hoje, dei tudo; junto com o Nicola fomos muito bem. Eu sabia que era competitiva: esta medalha tem mais significado que uma vitória na Copa do Mundo, havia muito público nos acompanhando”. O guia Nicola Cotti Cottini acrescentou uma leitura cuidadosa do desempenho: “Hoje correu bem, Chiara tem um potencial enorme; podia ter feito um pouco mais, mas esta medalha ajudará no futuro. Ela precisa confiar na condução”.
O resultado é mais que uma estatística: é a confirmação de um trabalho de conjunto entre atleta e guia, um mecanismo de confiança e técnica que traduz, na prática, o que a modalidade para-atlética representa quando bem estruturada. Em arenas como a de Milano Cortina 2026, o público e a visibilidade passam a reconfigurar trajetórias — pessoais e institucionais — e a medalha assume também papel simbólico para políticas de investimento e memória esportiva.
Paralelamente às competições, a cerimônia de abertura trouxe escolhas simbólicas e artísticas que visaram ampliar a visibilidade do movimento paralímpico. A bandeira italiana foi conduzida por Carlotta Bertotti — figura pública que optou por mostrar sem disfarces a marca escura no rosto — e por Veronica Yoko Plebani, atleta paralímpica veterana presente em quatro edições dos Jogos. Essa opção de representação enfatizou a interseção entre imagem pública, identidade e visibilidade social.
O primeiro número coreográfico, intitulado “Vibes”, buscou traduzir vibrações e o batimento cardíaco como metáfora central do evento. No plano musical, destacaram-se a baterista veronesa campeã do mundo Elisa “Helly” Montin, o icônico Stewart Copeland (dos Police) e o músico com deficiência Cornel Hrisca-Munn. A instalação escultural “Apparato Circolatorio”, do artista italiano Jago, foi concebida para transformar o pulsar vital em obra — uma intervenção que procura atravessar e superar diferenças visuais e simbólicas.
No campo político, a cerimônia sofreu ausências que atraíram comentários do ministro do Esporte, Andrea Abodi, vindo a público em Verona. Abodi reconheceu que “há um véu de amargura”: a expectativa por decisões diferentes não se cumpriu, e as deserções à abertura foram lamentadas. Ainda assim, defendeu o respeito pelas decisões democráticas e disse que a prioridade é proteger e apoiar os atletas. Sobre a opção de não anunciar os nomes de algumas delegações durante a cerimônia, classifica a medida como dolorosa, mas necessária para preservar a dignidade e segurança dos competidores, esperando que a diplomacia encontre caminhos eficazes para superar o impasse.
Em resumo, o dia inaugurou as disputas com uma narrativa dupla: a da pista, onde Chiara Mazzel materializou em prata o trabalho técnico e de confiança com sua guia; e a da arena, onde arte, representação e tensão política se encontraram, lembrando que as Paralimpíadas não são apenas um conjunto de resultados, mas um palco onde se negociam símbolos e direitos.
Nota editorial: A cobertura seguirá com análises das provas de biatlo e demais competições programadas para hoje, com atenção ao impacto institucional e cultural desses Jogos no panorama esportivo europeu.






















