Por Otávio Marchesini – Espresso Italia
Na presença das principais autoridades do país, foi oficialmente inaugurada a cerimônia de abertura das Paralimpíadas Milano Cortina 2026 na noite realizada na Arena di Verona. Com uma frase curta e solene, o presidente da República, Sergio Mattarella, proclamou: “Dichiaro aperti i Giochi Paralimpici Invernali di Milano Cortina 2026“, gesto que arrancou uma onda de aplausos e reconhecimento do público presente.
O cenário escolhido — um monumento classificado como patrimônio da humanidade pela Unesco — consolidou o caráter simbólico do evento: pela primeira vez, um sítio histórico desta natureza recebeu a cerimônia inaugural dos Jogos Paralímpicos de Inverno, sequência do gesto já visto duas semanas antes na cerimônia de encerramento dos Jogos Olímpicos. Essa opção conjuga espetáculo e memória, transformando o rito esportivo em uma operação de afirmação cultural e turística para o projeto Milano Cortina 2026.
Abertura e diversidade foram temas visíveis desde os primeiros minutos. Um vídeo introdutório mesclou rostos de atletas de diferentes modalidades para celebrar a unidade e a pluralidade do movimento paralímpico. No exterior da Arena, a baterista Elisa Helly Montin acendeu o espaço com uma rufada potente, seguindo o espírito do slogan “It’s Your Vibe“, que traduz a vibração individual transformada em energia coletiva.
Ao lado do Presidente assistiram ao espetáculo a primeira-ministra Giorgia Meloni, o presidente do Senado Ignazio La Russa, o presidente da Câmara Lorenzo Fontana, o ministro das Infraestruturas Matteo Salvini, o ministro para o Esporte Andrea Abodi, e a ministra para as Deficiências Alessandra Locatelli. Estiveram presentes também os presidentes regionais Attilio Fontana (Lombardia) e Maurizio Fugatti (Provincia Autonoma di Trento), além dos prefeitos de Milano e Cortina, Giuseppe Sala e Gianluca Lorenzi.
O desfile das delegações trouxe simbolismos e também tensões. Diversos países, começando pela Ucrânia, optaram pelo boicote em protesto pela decisão do Comitê Paralímpico Internacional (IPC) de admitir atletas da Rússia e da Bielorrússia com hino e bandeira — um elemento que permanece como nó político em torno da competição. Ainda assim, o público italiano recebeu calorosamente a delegação nacional, e gestos de fair play emergiram: a delegação do Japão foi vista acenando com o tricolor italiano ao lado de sua bandeira, e a bandeira ucraniana, conduzida por voluntários conforme determinação do IPC, foi alvo de uma longa ovação.
Nos discursos institucionais, o tom foi de celebração e também de reflexão sobre o papel social do esporte. Giovanni Malagò, presidente da Fundação Milano Cortina 2026, abriu as falas evocando o êxito organizado das competições recentes e a transição simbólica entre Olimpíadas e Paralimpíadas. A cerimônia, mesclando espetáculo e significação política, reafirma como o grande evento esportivo atua hoje como palco de questões que ultrapassam o resultado competitivo: inclusão, memória e posicionamento geopolítico.
Como repórter e analista, o que se viu em Verona não foi apenas uma festa de abertura. Foi uma operação de representação coletiva: o Estado presente em peso, a arte e o patrimônio como moldura, e o movimento paralímpico reivindicando visibilidade enquanto arena de debates sobre identidade, solidariedade e limites do esporte em tempos de tensões internacionais.






















