[foto: European Council]
Por Marco Severini — Bruxelas. A União Europeia deu um movimento decisivo no tabuleiro diplomático: a Comissão Europeia anunciou a suspensão imediata do regime de isenção de vistos para o pessoal diplomático e funcionários públicos da Geórgia, em vigor por um ano, até 6 de março de 2027. A medida, que pode ser prorrogada por mais 12 meses até 6 de março de 2028, emerge como sinal claro de desaprovação face ao deterioramento da situação política no país caucasiano.
Segundo Bruxelas, o recuo da Geórgia em diretrizes de governança e Estado de direito — com episódios de repressão iniciados a partir de outubro de 2024 — afetou gravemente direitos fundamentais e padrões jurídicos internacionais. Entre as medidas criticadas estão a repressão a manifestantes pacíficos, a perseguição a opositores políticos e restrições a meios de comunicação independentes. O Parlamento Europeu já havia sinalizado preocupação com essa deriva autoritária; agora a Comissão converte essa preocupação em ação concreta.
A decisão impõe que, mesmo em visitas oficiais, representantes georgianos terão de apresentar visto para entrar na área Schengen. As autoridades comunitárias divulgaram linhas-guia para consulados e guardas de fronteira dos Estados-membros, recomendando controles mais rigorosos a todos os cidadãos da Geórgia que cruzarem as fronteiras externas da UE. Em especial, determina-se que funcionários georgianos em missão usem o passaporte diplomático ou de serviço; o descumprimento poderá resultar em proibição de entrada.
Henna Virkkunen, vice-presidente executiva para a Soberania Tecnológica, Segurança e Democracia, declarou: “A decisão é uma resposta à violenta repressão contra manifestantes pacíficos, opositores políticos e meios de comunicação independentes, iniciada em seguida ao anúncio das autoridades georgianas de não abrir as negociações com a UE antes de 2028”. Virkkunen recordou que a liberalização de vistos é essencial para a mobilidade entre a UE e países parceiros, mas sublinhou: “quem não respeita os direitos fundamentais não deve usufruir dessa liberdade”.
Do ponto de vista estratégico, trata-se de uma manobra de contenção: a suspensão penaliza simbolicamente o governo de Tbilisi, ao mesmo tempo em que busca preservar os alicerces jurídicos que sustentam as relações com parceiros externos. Este é um movimento que redesenha fronteiras invisíveis na arquitetura das influências regionais. A tectônica de poder no Cáucaso pode ser afetada — especialmente se a suspensão for prolongada — com potenciais consequências sobre alinhamentos geopolíticos e sobre a população civil, que vê diminuída a facilidade de deslocamento para fins oficiais e profissionais.
As linhas de orientação da Comissão são ao mesmo tempo punitivas e condicionais: se as autoridades georgianas corrigirem as falhas relativas ao Estado de direito e à governação, a suspensão poderá ser revertida; na falta de tal evolução, a medida poderá durar até 24 meses no total. Em termos práticos, o gesto de Bruxelas é um aviso severo, uma mensagem que cruza capitais e embaixadas: a paciência europeia nos temas centrais da democracia e das liberdades está esgotada.
Na leitura de quem observa o tabuleiro internacional com olhos de longo prazo, esta decisão é menos uma ruptura total do diálogo do que uma redefinição das regras do jogo. Resta saber como Tbilisi responderá: por vias institucionais e de reconciliação com padrões europeus, ou por aprofundamento das fraturas internas com risco de deslocamento do seu eixo de influência.





















