Por Aurora Bellini — Em um achado que ilumina novos caminhos para a paleontologia marinha, dois esqueletos parciais de baleias fósseis com cerca de dez milhões de anos foram identificados ao norte da praia de Galé – Fontainhas, no município de Grândola, em Portugal. A descoberta, divulgada pela autoridade local e confirmada por equipes científicas, revela um patrimônio paleontológico notável emergido após fortes tempestades.
As estruturas ósseas vieram à tona depois da remobilização da areia causada pelas intempéries, o que levou o município a solicitar apoio técnico ao Museu da Lourinhã. Após a devida autorização e reunião com as autoridades competentes, foi mobilizada uma equipe multidisciplinar composta por paleontólogos do Museu da Lourinhã, do Instituto Dom Luiz (Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa) e do Museu Nacional de História Natural e da Ciência, além de técnicos do município, para conduzir a escavação.
O trabalho no local exigiu uma operação cuidadosa e sincronizada: o acesso estava condicionado pelas marés, tornando necessária uma logística complexa de escavação, conservação, embalamento e transporte dos fósseis. As condições apertadas não impediram, contudo, que a equipe identificasse uma extensão impressionante de rocha sedimentar — uma laje com mais de cem metros exposta à superfície.
Segundo os especialistas, essas rochas pertencem à Formação Alcácer do Sal, depositada durante o Mioceno, especificamente entre o Serravaliano superior e o Tortoniano inferior, há aproximadamente dez milhões de anos. A laje revelou uma rica e variada assembléia de fósseis marinhos: restos de baleias, golfinhos, tartarugas, tubarões, peixes ósseos e possivelmente aves, além de uma fauna diversa de invertebrados, como bivalves e balanídeos (os populares cirrípedes).
De especial relevância são os dois esqueletos parciais atribuídos ao grupo dos Mysticeti, as baleias com barbatanas que hoje incluem espécies como a baleia-cinza e a baleia-azul. Segundo os peritos envolvidos, estes exemplares estão entre os mais completos de baleias do Mioceno já encontrados em Portugal e figuram igualmente entre os mais íntegros de toda a Europa.
Um dos esqueletos apresenta um crânio e duas mandíbulas quase completos, além de diversas vértebras e costelas. O outro inclui um crânio quase íntegro, partes das mandíbulas, várias vértebras e costelas, e possíveis ossos dos membros anteriores e do cinturão escapular. Tais condições oferecem uma janela rara para investigar a anatomia e a evolução desses gigantes marinhos.
A equipe do projeto, coordenada por instituições portuguesas de referência, destaca que o estudo detalhado desses fósseis poderá revelar informações essenciais sobre a evolução dos Mysticeti, seus hábitos ecológicos e a paleobiogeografia do Atlântico nordeste durante o Mioceno. Em termos práticos, as peças serão conservadas e preparadas para análises mais profundas, que integrarão técnicas modernas de tomografia, datação e comparações morfológicas.
Enquanto a comunidade científica se prepara para essa investigação, a descoberta também ilumina o papel das comunidades locais e das instituições culturais na preservação do patrimônio natural. É um lembrete de que, quando areia e mar deixam à vista esses fragmentos do passado, cabe a nós semear conhecimento e tecer laços entre ciência, cultura e sociedade.
Esta reportagem foi apurada e adaptada especialmente para a Espresso Italia, que acompanha com atenção e responsabilidade descobertas que traduzem o renascimento cultural e científico do nosso litoral.






















