Giulia Lazzarini continua sendo — para a vizinhança e para os que cruzam seu caminho — simplesmente a Giulia. «Segundo andar, à direita», dizem a porteira e os moradores de um bairro que a conhece há meio século. Aos 92 anos, com o sorriso discreto que antecipa uma fragilidade resistente, a atriz símbolo do teatro italiano vestiu outra vez a pele do ofício que a moldou.
No novo espetáculo do Piccolo Teatro, dirigido por Claudio Longhi, a peça inspirada em Miracolo a Milano volta ao palco Strehler com Lino Guanciale no papel de Totò — e com Giulia Lazzarini como a inesquecível Lolotta. Quando Longhi a convidou, ela aceitou sob uma condição clara: «Não me façam voar!» — recordando, com uma mistura de riso e memória, o preço físico de alguns milagres cênicos.
O episódio remete ao encontro com a obra de Strehler, que a suspendera nos fios de «Tempesta»: «Perdi as costas… Debaixo dos véus de Ariel usava um colete ortopédico para aguentar o sobe e desce, enquanto um ventilador me soprava. Eu realmente voava, era lindo. Mas que cansaço — ainda o sinto».
Em cena, Lolotta carrega a narrativa com a doçura dura de quem conhece a escassez: encontra um bebê sob um repolho, cria-o como filho, morre cedo, mas retorna do além para ficar ao lado do seu Totò — agora homem em uma comunidade de desalojados que se tornou alvo de especulação imobiliária. É a volta da figura materna que, na fábula de De Sica e Zavattini, salva com uma pomba mágica capaz de realizar desejos.
«Mágica no sentido de conceder desejos simples», explica a atriz. «Coisas pequenas para gente pobre: um par de sapatos, uma máquina de costura… Uma bicicleta era o luxo máximo na Itália do pós-guerra, e ainda hoje é símbolo daqueles que trabalham duro, como os entregadores».
A cena da fuga — «em duas rodas, como no ET de Spielberg» — transforma a bicicleta em um artefato de liberdade: um meio humilde que, no palco, vira veículo para a ilha que não existe, onde «bom dia significa bom dia». É nesse jogo entre imaginação e necessidade que o espetáculo reencontra a cidade.
Para Giulia Lazzarini, a memória pessoal se entrelaça com a história cultural: moradora de Lambrate quando o set da baraccopoli surgiu nos campos próximos, lembra a emoção de ver Paolo Stoppa filmando, episódios que seriam, anos depois, encontros e milagres do teatro.
Milão no palco e Milão fora dele: «Não é o mesmo mundo, nem melhor. A Milão de então era pobre, mas cheia de esperança; os ricos podiam ser cruéis, mas ao menos ofereciam trabalho», reflete. Esse contraste — entre promessa e desgaste — é o refrão que atravessa a montagem: um espelho do nosso tempo onde a fábula revela seu roteiro oculto, expondo tensões sociais sob a leveza de um conto.
Ela ocupará o palco por toda a duração da peça; não voará, mas sua presença promete um voo simbólico — daqueles que não exigem cabos ou ventiladores, apenas a força de um ofício que transforma memórias em políticas do sentimento. Em tempos de reconfiguração urbana, Miracolo a Milano reaparece como um pequeno ato de resistência estética: um eco cultural que nos convida a escutar o teatro como voz potente e exigente.






















