Por Marco Severini — Em uma declaração de tom estratégico e com claras implicações geopolíticas, o presidente Trump afirmou à CNN que “Cuba cairá muito em breve”. A entrevista, concedida no dia seguinte a insinuações sobre um projeto não especificado relacionado ao pós-guerra contra o Irã, reacende uma política de pressão que coloca em risco os já frágeis alicerces econômicos da ilha.
Segundo o ex-presidente, “temos muito tempo, mas Cuba está pronta, depois de 50 anos”. Ele indicou que o Secretário de Estado seria o senador Marco Rubio, cujo apelido e trajetória política se confundem com a causa cubana, como o ponto de referência para a estratégia em relação à ilha. Tanto Trump quanto Rubio — este último filho de imigrantes cubanos — não escondem o objetivo de promover uma mudança de regime em Havana.
Em termos concretos de pressão, Washington instituiu um bloqueio energético à nação caribenha que, de acordo com relatos, provocou o colapso das remessas de combustível após a captura pelo governo norte-americano do presidente venezuelano Nicolás Maduro, até então um fornecedor relevante de petróleo a Cuba. Desde 9 de janeiro, não teria sido importado petróleo para a ilha, fato que obrigou companhias aéreas a reduzir voos e aprofundou uma crise econômica crônica marcada por longas interrupções no fornecimento de energia elétrica e falta de combustíveis, medicamentos e alimentos.
Havana acusa explicitamente Trump de tentar estrangular a economia como instrumento de coerção política. A ilha, submetida ao embargo comercial dos Estados Unidos desde 1962, encontra-se imersa em uma crise estrutural que agora ganha uma nova camada de pressão externa: a tensão energética que desestabiliza serviços essenciais e amplia o impacto social.
Do ponto de vista estratégico, trata-se de um movimento decisivo no tabuleiro regional. A combinação de sancionamento econômico focalizado e declarações públicas de autoridade política compõe uma estratégia de aperto que visa acelerar o desgaste do regime em Havana. No entanto, a iniciativa também redesenha fronteiras invisíveis de influência: empurra a ilha para uma dependência ainda maior de parceiros alternativos e expõe a tensão entre a retórica de mudança de regime e os riscos de desestabilização regional.
Em termos de estabilidade hemisférica, a manobra norte-americana pode ser lida como parte de uma tectônica de poder maior, onde cada movimento é medido não só pelo impacto imediato, mas pelos rearranjos de alianças que provoca — um desenho que remete à arquitetura clássica da diplomacia, em que a força e a persuasão operam em paralelo.
Para analistas, a pergunta central é se a estratégia de pressão energética e política produzirá um desfecho rápido, como preconiza Trump, ou se consolidará um ciclo de reações que consolidará resistências internas e externas, ampliando a crise humanitária sem garantir a mudança de regime desejada. Em qualquer dos cenários, o movimento revela uma vez mais que na geopolítica contemporânea o equilíbrio entre poder e legitimidade define os resultados — e que cada aposta implica riscos consideráveis para a estabilidade regional.






















