Bruxelas – No sexto dia de uma escalada regional que ameaça redesenhar a geopolítica do Mediterrâneo e do Golfo, a Alta Representante da União Europeia para os Assuntos Exteriores, Kaja Kallas, convocou uma reunião extraordinária por videoconferência com os ministros dos 27 Estados-membros e com representantes do Conselho de Cooperação do Golfo. A iniciativa visa coordenar uma resposta conjunta para proteger sobretudo Chipre, na linha de frente do conflito, e os parceiros do Golfo alvo das retaliações vindas do Irã.
Ao assumir a condução dos trabalhos na Lanterna, sede do Conselho da UE, Kallas foi categórica: “O Irã está exportando a guerra”, estendendo ataques para multiplicar o caos regional. Os veículos aéreos lançados por Teerã e por forças afins têm mirado não só as monarquias do Golfo, mas também a Turquia e a base britânica de Akrotiri, em Chipre. A Alta Representante sublinhou que muitos desses alvos foram atingidos pelos mesmos modelos de aeronaves — os Shahed de origem iraniana — responsáveis também por ataques diários contra Kiev.
Num movimento de diplomacia prática e de engenharia estratégica, Kallas propôs que a Ucrânia contribua com a sua experiência em sistemas de defesa anti-drones. A lógica é nítida no tabuleiro: Kiev, constantemente sob bombardeios de enxames de drones, desenvolveu soluções técnicas para interceptação que podem ser imediatamente úteis aos Estados do Golfo, onde a ameaça se reproduz em escala.
O próprio presidente Volodymyr Zelensky confirmou, através de uma publicação na plataforma X, a disponibilidade ucraniana para oferecer apoio técnico. Zelensky indicou que vários parceiros — incluindo Emirados Árabes Unidos, Bahrein, Jordânia, Kuwait e Catar — já requisitaram a expertise de Kiev, assim como aliados europeus e os Estados Unidos. O presidente ucraniano ressaltou a possibilidade de trocas tecnológicas ou de armamento, apontando que sistemas caros como os Patriot não são a solução econômica para interceptar centenas ou milhares de drones Shahed: “eles precisam de drones interceptores, que nós possuímos”.
Na esteira diplomática, Itália, Espanha e Países Baixos anunciaram o envio de meios navais para reforçar a proteção de Chipre. A primeira-ministra Giorgia Meloni declarou que Roma está planejando enviar apoio para defesa aérea aos países do Golfo. Em telefonema com o presidente francês, Emmanuel Macron assegurou o compromisso de Paris em fornecer sistemas anti-drones a Chipre. Ambos enfatizaram a prioridade em evitar uma escalada para o Líbano e novos teatros de conflito.
Do ponto de vista estratégico, trata-se de um movimento de contenção: a UE tenta consolidar um flanco de defesa que una competências técnicas (a experiência ucraniana), capacidade naval europeia e apoio logístico aos países do Golfo. É um típico lance de xadrez diplomático — reposicionar peças para dissipar uma ameaça difusa, preservando ao mesmo tempo os alicerces frágeis da estabilidade regional. A tectônica de poder em curso exige respostas calibradas para evitar que um conflito localizado se transforme em conflito por procuração de escala mais ampla.






















