Por Alessandro Vittorio Romano — A escassez de remédios deixou de ser um evento pontual para se tornar uma característica entranhada na cadeia farmacêutica europeia. O relatório do Pgeu (Pharmaceutical Group of the European Union), que reúne as associações de farmacêuticos do continente, descreve um quadro onde, em 2025, em 70% dos países europeus não houve avanços na luta contra a carença de medicamentos e em 15% a situação piorou.
Entre os países que viram a situação se agravar está a Itália, com um aumento de 4,8% nos episódios de indisponibilidade de medicamentos em comparação com o ano anterior. É uma cifra que, embora numérica, traduz a sensação — para pacientes, farmacistas e sistemas de saúde — de uma pressão crônica sobre o acesso a tratamentos essenciais.
Como bem apontou o presidente do Pgeu, Mikołaj Konstanty, “a carência de medicamentos se estabilizou, mas em um nível inaceitavelmente alto. Não são mais incidentes isolados: é uma pressão crônica sobre pacientes, farmacistas e sistemas sanitários”. Essa afirmação soa como um alerta que ecoa pela cidade: a respiração do cuidado fica mais difícil quando faltam os elementos básicos para curar e aliviar.
O relatório atribui essa realidade a fatores enraizados e interligados: a instabilidade geopolítica que altera rotas e matérias‑primas, aumentos repentinos da demanda que esvaziam estoques, reduções bruscas de oferta e a baixa sustentabilidade econômica de certos produtos. Em outras palavras, a cadeia de abastecimento vive um inverno prolongado: falta sol para as plantas que sustentam a produção e, sem calor financeiro, alguns medicamentos tornam‑se inviáveis para fabricantes.
O impacto é sentido em várias frentes. Para o público, há a incerteza sobre quando o tratamento estará disponível; para as farmácias, o desafio de gerir substituições, explicar alternativas e proteger pacientes vulneráveis; para os sistemas de saúde, o custo e complexidade de responder a rupturas sem comprometer a continuidade do cuidado. A foto desse cenário revela um território onde as raízes do bem‑estar precisam ser nutridas com políticas, investimentos e diversificação produtiva.
Entre as causas apontadas, destaca‑se também a concentração da produção em poucos pontos do planeta e a dependência de cadeias longas de suprimentos. Quando uma peça dessa rede falha, o efeito em cascata atinge prateleiras e, por fim, a vida cotidiana das pessoas. A solução, sugerem especialistas, passa por maior resiliência industrial, estoques estratégicos, incentivos para a fabricação local e colaboração regulatória entre países.
Como observador do cotidiano italiano, vejo nessa questão uma ligação direta com a qualidade de vida: a disponibilidade de um medicamento é parte da colheita de hábitos que sustentam a saúde coletiva. Proteger esse acesso é proteger a respiração da cidade — e requer decisões que combinem responsabilidade econômica, visão política e sensibilidade humana.
O relatório do Pgeu funciona como um mapa que indica onde o terreno é mais árido. Resta às autoridades, aos profissionais de saúde e à indústria semear soluções que devolvam ritmo e confiança ao cuidado. Até lá, pacientes e farmacêuticos permanecem na linha de frente, administrando expectativas e buscando alternativas, enquanto a paisagem do abastecimento farmacêutico aguarda um novo ciclo de renovação.






















