Guerra Rússia-Ucrânia, desgaste e a ilusão das analogias históricas. Observadores ocidentais frequentemente comparam a duração do atual conflito com a da Primeira Guerra Mundial, apontando para um “impasse”. Essa comparação é sedutora, mas oculta diferenças estruturais fundamentais: as guerras mundiais implicaram uma mobilização geral imediata e uma verdadeira economia de guerra, com porções enormes do produto nacional redirecionadas ao esforço bélico. Essa intensidade levou, historicamente, a um consumo acelerado de recursos humanos e econômicos, resultando em exaustão estatal em ritmo relativamente rápido.
É neste contraste que reside a relevância da lição de Aleksandr Svechin. No livro Strategy, o teórico militar russo, já nas décadas posteriores à Primeira Guerra, propôs que o Estado moderno devia cultivar uma mobilização flexível e permanente, calibrada segundo as condições políticas e materiais. Svechin advertia contra a mobilização total prematura, que cria a ilusão de reservas ilimitadas e conduz a ofensivas exageradas, com perdas que não podem ser repostas sem comprometer a capacidade futura do Estado. A história de 1914–1915, com ofensivas massivas e baixíssimos ganhos territoriais diante de milhões de baixas, tornou essa advertência particularmente pungente.
Transpondo essa matriz para a dimensão econômica, a alternativa entre economia de guerra e economia resistente torna-se estratégica. Uma economia inteiramente militarizada produz efeitos imediatos, mas deixa rastro de dívida, tensões sociais e fragilidades internas. Já a lógica da resistência estratégica privilegia uma construção de capacidade militar sustentável: não se trata de manter intensidade máxima contínua, mas de assegurar que a máquina de guerra se mantenha operacional ao longo de anos, preservando a estabilidade doméstica.
À luz desse arcabouço analítico, é possível interpretar as escolhas russas no teatro ucraniano como um movimento pensado sobre um tabuleiro de xadrez de longo prazo. Em vez de uma mobilização total capaz de decidir rapidamente, vemos elementos de uma economia das forças: incrementos graduais de mobilização, reorganização logística, ênfase em rotas de suprimento e em capacidade de reconstituição. Do lado ucraniano e de seus apoiadores ocidentais, a assistência militar e financeira busca contrabalançar esse ritmo, mas também está sujeita a limites internos de orçamento, vontade política e manutenção de coesão social.
Esse cenário configura um clima favorável ao logoramento estratégico. Conflitos desse tipo experimentam uma tectônica de poder em que ganhos territoriais alternam-se com reforços, desgaste de material e pessoal, e uma permanente guerra de atrito sobre linhas de abastecimento, produção industrial e resiliência política. Diferentemente da guerra total do século XX, a dinâmica contemporânea aposta em persistência e em capacidade de sofrer e assimilar perdas, mantendo ao mesmo tempo um horizonte de continuidade institucional.
Do ponto de vista da diplomacia e da estratégia internacional, reconhecer essa possibilidade altera a cartografia das respostas. As potências externas que desejam influir no desfecho não enfrentam apenas um campo de batalha físico, mas um tabuleiro prolongado em que medidas econômicas, sanções, apoio logístico e persuasão política movimentam peças discretas, porém decisivas, ao longo de anos. A arquitetura das alianças e a integridade das cadeias de produção são agora alicerces que podem definir resultados tão seguramente quanto batalhas campais.
Como analista, proponho que se abandone a tentação das metáforas imediatas e se adote uma visão de longo prazo: preparar capacidades de resistência, avaliar ritmos de mobilização e resiliência institucional, e mapear os pontos de inflexão político-estratégicos. No tabuleiro da geopolítica, vencer um jogo de desgaste exige menos golpes hegemônicos e mais gestão paciente das posições — rearmar, reconstituir, conservar e, quando possível, explorar erros do adversário.
Em suma, o conflito russo-ucraniano tem todas as características de um confronto que pode transcender a lógica das guerras absolutas do século XX. Não por um único movimento decisivo, mas por um conjunto de decisões calibradas, econômicas e militares, que tornam o amanhã tão importante quanto o combate de hoje.






















