Por Marco Severini — Em um movimento que revela mais do que uma mera estratégia de comunicação, a Casa Branca compartilhou nas suas redes sociais um meme com o texto “Make America Great Again” cuja estética é nitidamente próxima à capa do novo jogo Pokémon Pokopia, lançado em 5 de março de 2026. A imagem, que aparenta ter sido gerada por inteligência artificial no estilo do título recém-lançado, foi difundida em um momento de alta sensibilidade midiática — circunstância explorada com frequência pelos operadores do ecossistema digital para maximizar alcance.
Fontes da Pokémon Company International foram claras: a empresa não autorizou a Casa Branca a publicar “conteúdos sociais que incluem imagens associadas ao nosso marcado”. Em declarações ao New York Times, um porta-voz da corporação afirmou que a companhia “não foi envolvida na criação ou distribuição” do material e que “não foi concedida qualquer autorização para o uso de nossa propriedade intelectual”. A empresa reiterou sua missão declarada de “unir o mundo”, alegando que tal missão não se confunde nem se alinha a agendas políticas.
Há aqui uma lição direta sobre os algoritmos que governam a visibilidade online: quando um tema chega ao pico de interesse público, conteúdos fortemente relacionados a ele têm probabilidade ampliada de receber tração automática, sobretudo se exploram símbolos culturais de elevado apelo, como o universo Pokémon. Esse aproveitamento oportunista do zeitgeist digital é um movimento calculado no tabuleiro — eficaz para captar atenção, mas potencialmente arriscado quando envolve marcas registradas.
Não é a primeira vez que a empresa reage a usos institucionais de suas imagens. Em setembro, a Pokémon Company International já havia destacado desconforto após o Departamento de Segurança Interna dos EUA divulgar um vídeo de detenções do ICE com interlúdios de trechos de “Pokémon” e a canção do anime “Gotta Catch ‘Em All!”. Na ocasião, não houve notícia pública de ações judiciais efetivadas pela companhia.
No último ano, a Casa Branca também recorreu a estilos visuais de outras propriedades culturais: usou uma estética inspirada no Studio Ghibli para ilustrar uma prisão realizada pelo ICE; e, durante a atual escalada contra o Irã, publicou vídeos que misturaram imagens do videogame Call of Duty com imagens de ataques reais — em que a Microsoft, proprietária do jogo, optou por não comentar. Mais recentemente, canais oficiais divulgaram um vídeo híbrido, mesclando cenas reais de conflito com trechos de filmes americanos icônicos (Iron Man, O Gladiador, Top Gun, Terminator, Spider-Man) acompanhado pelo texto “Giustizia, la via americana”.
Em suma, o episódio evidencia uma tensão crescente entre estratégias comunicacionais de alta visibilidade e os alicerces legais e éticos da propriedade intelectual. Do ponto de vista geopolítico e comunicacional, trata-se de um movimento audacioso: captura pontos sensíveis do imaginário coletivo, mas cria fricções com proprietários de marcas globais e com audiências atentas à instrumentalização cultural. No grande tabuleiro das influências contemporâneas, cada peça movida com fins de persuasão pública exige cálculo preciso — sob pena de comprometer, em vez de consolidar, a estabilidade simbólica do poder.






















