Lança-se aqui uma provocação com sabor de pergunta pública: não estaria na hora de um referendum sobre a separação dos processos? Uma divisão clara entre o que circula nas luzes da televisão e o que deve permanecer reservado às salas de audiência. A sugestão pode soar abrupta, mas ganha contornos racionais após assistir ao mais recente choque em torno do caso Garlasco — o episódio Far West de Salvo Sottile (Rai3).
Quando o espetáculo ocupa o centro do palco, as pessoas deixam de ser sujeitos processuais e passam a desempenhar papéis no grande palco do público: vítimas, suspeitos, heróis e vilões. Vi ali, em composição de casual chic, os advogados Giada Bocellari e Antonio De Rensis, e o jornalista jurídico Gian Luigi Tizzoni, todos acompanhados por apresentadoras e repórteres intensamente envolvidas, que há meses acompanham o caso. É a encenação de uma tragédia que corre o risco de virar comédia pública.
O maior perigo do que já se tornou um verdadeiro Garlasco Show é a formação de uma verdade pública que corre paralela — e muitas vezes contrapõe — à verdade construída em juízo. O magistrado está preso às provas e ao contraditório; a opinião pública alimenta-se de vazamentos, pormenores sensacionalistas e especulações que, juridicamente, são inaproveitáveis. Nas redes e nos talk shows instaura-se uma polarização abrasiva: julgamentos instantâneos baseados em intuição, não em prova, onde se condena ou absolve antes que o juiz profira sua decisão.
Outro efeito pernicioso é o risco de influência sobre testemunhas. Aquele que depõe, exposto a câmeras e comentários midiáticos, tende muitas vezes a ajustar seu depoimento à narrativa mais convincente vista na TV, mordendo a espontaneidade que o ato processual exige. A memória — esse arquivo frágil do vivido — pode ser sobreescrita por reconstruções jornalísticas, produzindo um falso relato que depois contamina o processo.
Por fim, existe a pressão social que envenena a serenidade do julgador. Uma praça midiática sedenta por soluções imediatas cria expectativas homogêneas e pouco flexíveis; em casos extremos, essa atmosfera pode corroer a calma necessária para decidir com independência. O direito de notícia é pedra angular da democracia, mas quando se converte em infotainment a busca pela verdade corre o risco de ser sacrificada no altar da audiência.
Talvez seja o momento de repensar carreiras e limites: ou se opta pela ribalta televisiva, ou se escolhe a solidez das audiências. Uma norma disciplinar que impeça o trânsito livre entre o estúdio e a sala de julgamento — uma espécie de Corte Disciplinar Televisiva — pode soar dura, mas protege o processo do contágio midiático. É um reframe necessário para que o sistema de justiça não vire apenas um espelho deformado do nosso tempo.
Como observadora do zeitgeist, vejo nisso mais do que um conflito prático: é um sintoma do modo como produzimos e consumimos narrativas. O entretenimento, entretanto, nunca é apenas diversão; é também o roteiro oculto que reescreve a realidade. Para preservar a integridade do processo judicial, convém, com elegância e urgência, separar palco e tribunal.
Chiara Lombardi
Espresso Italia — 4 de março de 2026




















