Alice Mangione, nascida em Casazza e hoje radicada em Milão, retorna aos palcos com a segunda parte do seu monólogo sem filtros: Cruda e nuda – Lato B. O espetáculo, escrito em parceria com Manuela Mazzocchi, estreará no Teatro Civico de Dalmine, na sessão de sábado às 21h, dentro da programação do festival ComicoTeatro, promovido pelo assessorato ai Servizi sociali e Ambaradan.
Depois de uma longa experiência nas redes com a criação e os formatos do coletivo The Pozzolis Family, do qual foi coautora ao lado de Gianmarco Pozzoli, Alice Mangione volta ao teatro em versão mais íntima e aprofundada. É um retorno que tem o gosto da redescoberta — ela própria define esse novo capítulo como uma viagem de reencontro consigo.
“Nesta nova versão do show — antecipa Alice — eu vou mais a fundo em temas que antes tratava com leveza: experiências, memórias e relatos familiares que agora sinto necessidade de partilhar num espaço protegido. Tudo isso é catártico e tem-me dado muitas satisfações.” No palco, a artista promete dizer “a verdade, toda a verdade, nada além da verdade”, e para isso recorre, com ironia e poesia, a um método que cruza misticismo e cena: os tarôs.
Ela conta que, muitas vezes, os tarôs surgem como uma chave durante conversas com amigas — “um boost”, entre um copo e outro de Barolo — para reinterpretar aquilo que já se sabe no íntimo. Ainda assim, confessa, acaba por se fiar mais ao coração, à inspiração e ao instinto que a ao oráculo.
O título Cruda e nuda remete às primeiras experiências de Alice no cabaré. “Quando comecei aos 19 anos, naquela época era impensável para mulheres entrar nesse ofício sem encarar perguntas absurdas. Lembro-me de estar na Suíça e o dono do espaço perguntar: ‘Em que parte você se despe?’. Respondi: ‘Nunca. Por que deveria?’”, recorda. E adianta com humor que, nesta ocasião, anunciará ao público que não estará vestida durante todo o espetáculo — uma provocação que mistura performatividade, diferença entre aparência e essência e o jogo entre expectativa e verdade.
O percurso artístico de Alice Mangione também passa pelo cinema — participou de filmes como Oggi sposi (Luca Lucini), Un fidanzato per mia moglie (Davide Marengo) e, mais recentemente, Toc Toc (Paolo Costella, 2024) — e pela televisão, em programas como Prova dell’otto (Caterina Guzzanti) no MTV, Glob – Diversamente italiani na Rai Tre, Colorado na Italia Uno e Ccn no Comedy Central. Em 2022 integrou o elenco de LOL 2 na Prime Video.
Com Gianmarco Pozzoli idealizou o projeto The Pozzolis Family a partir de 2016, que a consolidou entre as principais criadoras de conteúdo italianas; com o coletivo publicou dois romances pela Mondadori. Agora, ao subir novamente a uma cena de teatro, Alice entrega ao público um espetáculo que é, ao mesmo tempo, espelho do nosso tempo e um exercício de reframe pessoal: a semiótica do viral transformada em prato de introspecção.
O que vemos em Cruda e nuda – Lato B não é apenas humor; é um roteiro oculto da vida que se desdobra entre um riso e um esgar de sinceridade. A proposta de Alice Mangione é oferecer ao espectador essa camada dupla — entretenimento e reflexão — num formato que é, por natureza, confessionário e performático. Para quem busca depois do sorriso uma luz que ilumine memórias e desejos, este monólogo promete ser um espelho nítido e, ao mesmo tempo, um convite à transformação.






















