Quase seis meses após a onda de protestos sem precedentes liderada pelos jovens — que deixou 77 mortos — o Nepal realiza nesta manhã as eleições gerais destinadas a compor o novo parlamento. Em jogo está não apenas a sucessão de poder, mas o equilíbrio das expectativas de uma Geração Z que emergiu como ator político central.
Entre os nomes que se destacam nas pesquisas aparece Balendra Shah, mais conhecido como Balen. Ex-rapper, ex-prefeito de Kathmandu e figura carismática, Shah construiu sua popularidade com discursos e comícios que evocam mais videoclipes do que os tradicionais comícios políticos, além de composições que atacam a corrupção e as práticas de uma classe dirigente desacreditada.
Elet o em 2022 como prefeito de Kathmandu, foi o primeiro candidato independente a ocupar o posto. Durante os distúrbios de setembro de 2025 — responsáveis pela queda do primeiro-ministro Khadga Prasad Sharma Oli — o nome de Balen já circulava como possível alternativa, embora a chefia do governo tenha sido confiada à então ex-juíza Sushila Karki.
As eleições — com cerca de 19 milhões de eleitores chamados às urnas — elegem 275 membros do parlamento por sistema misto: 165 cadeiras por maioria uninominal e 110 por representação proporcional. A diversidade de candidaturas é ampla: Oli reaparece como líder do Partido Comunista do Nepal (Unificado Marxista-Leninista, UML), enquanto o histórico Congresso Nepalês, liderado por Gagan Thapa, e o Partido Comunista do Nepal (ex-maoistas) mantêm-se como forças estruturais, todas parte da tectônica política que dominou o país nas últimas três décadas.
No entanto, os indicadores de intenção de voto têm favorecido o Rastriya Swatantra Party (RSP), que tem em Balendra Shah seu candidato a primeiro-ministro. O programa do RSP concentra-se em promessas claras: geração de empregos, combate à corrupção e aperfeiçoamento da governança — demandas que emergiram com força nas manifestações de setembro e que agora figuram como o principal teste de legitimidade para os novos representantes.
Analistas apontam que estas eleições constituem um movimento decisivo no tabuleiro político do Nepal. Como observou um analista consultado pela imprensa internacional, se os líderes eleitos falharem em atender às aspirações juvenis, o risco de nova instabilidade permanece real. A história recente do país — 32 mudanças de governo em 35 anos — revela alicerces frágeis que exigem reformas estruturais, não apenas mudanças de peças.
Do ponto de vista geopolítico e estratégico, a ascensão de uma figura como Balen simboliza um possível redesenho de fronteiras invisíveis entre sociedade civil e Estado: um deslocamento de influência que pode alterar alinhamentos internos e a forma como potências regionais mapeiam o Nepal. A conjuntura exige prudência e capacidade de construir coalizões, pois a estabilidade — mais do que o carisma — será o verdadeiro teste de governabilidade.
Em suma, a atenção internacional permanece voltada para Kathmandu: se as urnas confirmarem a ascensão do RSP e de Balendra Shah, terá início um novo capítulo na política nepalense, cujo desfecho determinará se as esperanças juvenis são convertidas em reformas duradouras ou se os velhos mecanismos recomporão seu domínio sobre um tabuleiro que, até agora, permaneceu em constante mutação.






















