Por Marco Severini — Em um novo movimento que redesenha sutilmente linhas de influência no Leste Europeu, o presidente Alexander Lukashenko concedeu indultos a 15 pessoas condenadas sob acusações políticas, em mais um capítulo da relação pragmática e calculada entre Bielorrússia e Washington.
O gabinete presidencial bielorrusso disse que os 15 haviam sido condenados por crimes classificados como “extremismo“, termo frequentemente utilizado pelas autoridades para rotular opositores. Além desse grupo, foram libertadas outras três pessoas condenadas por delitos não especificados. Os nomes dos beneficiados não foram divulgados pelas autoridades, que afirmaram apenas que entre eles há 11 mulheres.
Esta rodada de perdões sucede uma iniciativa mais ampla do inverno passado, quando o emissário de Donald Trump, John Coale, negociou a libertação de 123 detidos — medida que incluiu figuras de alto perfil como o Nobel da Paz Ales Bialiatski e líderes oposicionistas como Maria Kalesnikava e Viktar Babaryka. Em contrapartida, os Estados Unidos suspenderam sanções sobre o setor de potássio bielorrusso, um ingrediente crucial para fertilizantes, num acordo que ilustra a mecânica realista da diplomacia: trocas tangíveis por concessões políticas limitadas.
A líder oposicionista exilada, Sviatlana Tsikhanouskaya, saudou as solturas, mas advertiu que a conta humana permanece alta. “Cada prisioneiro político libertado é uma vida salva”, escreveu em X, lembrando que mais de 1.100 pessoas ainda estariam encarceradas por motivos políticos. A apreensão de Tsikhanouskaya aponta para os alicerces frágeis da diplomacia em Minsk — concessões pontuais que não alteram a arquitetura repressiva do regime.
No mesmo dia, outro tabuleiro de poder em Genebra revelou uma tectônica diferente: o Conselho de Governadores da AIEA aprovou uma resolução que denuncia ataques às infraestruturas energéticas da Ucrânia como risco à segurança nuclear. No entanto, pela primeira vez desde o início do conflito, os Estados Unidos se alinharam com países como Rússia, China e Níger na oposição a esse texto.
Segundo diplomatas presentes, a resolução recebeu 20 votos a favor — entre eles França, Reino Unido, Austrália, Canadá, África do Sul e Argentina —, 10 abstenções (incluindo Brasil, Egito, Marrocos e Arábia Saudita) e 4 votos contrários. A declaração americana ao Conselho justificou o voto afirmando que, apesar de apoiar o trabalho técnico da agência na Ucrânia, não poderia endossar “uma avaliação que não contribui para a paz entre Ucrânia e Rússia”.
O documento aprovado, conforme apurou a imprensa, é menos contundente que textos anteriores. A novidade — a primeira recusa dos EUA a uma resolução da agência sobre a Ucrânia — sinaliza um ajuste de prioridades estratégicas: mais atenção a questões técnicas e militares como interceptores e segurança, e menos a rituais políticos que não produzem caminho claro para um cessar-fogo.
Estas duas peças — os indultos em Minsk e o voto americano na AIEA — são movimentos no mesmo grande tabuleiro. Revelam uma diplomacia que alterna pressão, compensações pragmáticas e reconfigurações discretas do equilíbrio de poder, enquanto as linhas de frente e as fronteiras invisíveis do jogo geopolítico continuam a se redesenhar.





















