Por Marco Severini — Em um movimento que redesenha linhas de influência no Mediterrâneo e no Oriente Médio, a Alta Representante da União Europeia para os Assuntos Exteriores, Kaja Kallas, convocou em Bruxelas uma videoconferência extraordinária entre os ministros dos 27 Estados-membros e o Conselho de Cooperação do Golfo. A iniciativa, tomada no sexto dia de uma escalada que já provou sua capacidade de transbordar fronteiras, procura articular uma resposta coordenada para proteger, em primeiro plano, Chipre e, em seguida, os Países do Golfo — alvos diretos das retaliações vindas do Irã e seus aliados.
Na entrada do edifício conhecido como Lanterna, sede do Conselho da UE, Kaja Kallas foi clara: “O Irã está exportando a guerra, buscando alargar o teatro do conflito e semear o caos”. Os ataques com drones Shahed — originários do arsenal iraniano e já utilizados contra Kiev — têm mirado não apenas as monarquias do Golfo, mas também a Turquia e a base britânica de Akrotiri, em Chipre. A retórica é fria; a prática é um deslocamento estratégico de risco, um movimento de peças no tabuleiro onde corredores civis e infraestruturas militares se encontram.
Foi nesse contexto que Kaja Kallas propôs um elo menos óbvio, porém de alto valor geopolítico: a cooperação com a Ucrânia. Kiev, explicaram os participantes, desenvolveu e aperfeiçoou sistemas de defesa aérea e interceptores de drones diante de ataques diários com os mesmos modelos Shahed. A proposta é pragmática e dirigida: aproveitar know-how operacional e soluções de baixo custo para proteger áreas vulneráveis do Golfo, tarefa que sistemas caros como os Patriot não podem assumir de forma eficiente contra massas de drones.
O próprio presidente Zelensky confirmou o oferecimento de assistência técnica e operacional. Em mensagem pública, ele indicou que países como Emirados Árabes Unidos, Bahrein, Jordânia, Kuwait e Qatar já solicitaram a experiência ucraniana. Zelensky sublinhou ainda a lógica de troca que rege o momento: “estamos em guerra” — portanto, o intercâmbio de tecnologia, equipamentos e suporte prático seria uma solução realista e proporcional, ao invés de uma escalada bélica direta.
No plano bilateral e de coalizão, Itália, Espanha e Países Baixos anunciaram o destacamento de meios navais para reforçar a proteção de Chipre. Em paralelo, a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, declarou que a Itália planeja fornecer ajudas para a defesa aérea dos países do Golfo; o presidente francês Emmanuel Macron prometeu o envio de sistemas anti‑drone a Chipre. Essas medidas demonstram que os aliados europeus preferem construir defesas e dissuasão local, preservando ao máximo os alicerces frágeis da diplomacia para evitar uma escalada regional.
Do ponto de vista estratégico, trata-se de um jogo de múltiplas frentes: por um lado, conter as ramificações militares imediatas; por outro, bloquear o efeito contagioso que um conflito ampliado teria sobre rotas comerciais, segurança energética e as linhas de influência no Mediterrâneo oriental. A oferta ucraniana de interceptores de drones é uma jogada de xadrez de relativamente baixo custo e alto rendimento político — um exemplo de como capacidades adquiridas em um teatro de guerra podem ser realocadas para estabilizar outro.
Em suma, as próximas semanas definirão se esse mosaico de iniciativas se cristaliza como um escudo cooperativo efetivo ou se transformará em uma sucessão de medidas reativas, incapazes de deter a tensão que o Irã procura exportar. A UE, ao convocar ministros e parceiros do Golfo sob a batuta de Kaja Kallas, escolhe a coordenação e a técnica sobre a retórica belicosa — um movimento que, no tabuleiro das grandes potências, visa evitar o desgaste dos alicerces diplomáticos e limitar a expansão do conflito.






















