Por Chiara Lombardi — Em um festival que funciona como um verdadeiro espelho do nosso tempo, onde cada gesto vira cena e cada bordão alimenta o imaginário coletivo, Carlo Conti reaparece para explicar o episódio que dominou as conversas pós-Sanremo 2026: a brincadeira sobre um par de jeans rasgados que acabou virando acusação de sexismo.
O fato ocorreu ao término da apresentação de Samurai Jay e seu grupo de bailarinas, quando o apresentador desceu até a plateia e, direcionando-se à esposa sentada em primeira fila, fez uma observação bem-humorada — no calor do palco — sobre o modelo de jeans que uma das dançarinas usava. Foi uma piada imediata, uma tentativa de goliardia que, segundo ele, pertence ao repertório clássico da sua cidade. A bailarina envolvida, Francesca Tanas, reagiu publicamente: publicou em uma história no Instagram acusando-o de ter “sexualizado” a situação por causa de uma peça de roupa e de ter exposto e envergonhado a mulher ao minimizar a questão da imposição sobre o que ela poderia vestir.
Na sequência, Carlo Conti concedeu um posicionamento às páginas da revista “Chi”, onde faz o balanço da sua segunda e — anunciou — última edição no palco do Ariston, antes de passar o bastão a Stefano De Martino para a próxima edição. Conti sublinha que, entre os traços que o definem, está a chamada goliardia fiorentina, um tipo de humor irônico e afetuoso que nem sempre encontra tradução imediata fora do contexto cultural local.
“Evidentemente nós, florentinos, temos um espírito respeitosamente goliárdico que nem todos conseguem apreciar”, disse ele, lembrando que sua esposa sorriu e entendeu o teor da brincadeira. “Se perdêssemos essa leveza, aí sim haveria motivo para preocupação, especialmente para as futuras gerações”, acrescentou, traçando uma defesa sutil da alegria como força cultural — um pequeno reframe contra a hipersensibilidade performativa do espetáculo.
O apresentador aproveitou para compartilhar também um bastidor quase cinematográfico: na noite dos duetos, o cantor Tony Pitony presenteou-o com sua máscara. Conti resolveu sair do teatro trajando-a, e, enquanto voltava ao hotel de carro com a máscara, abaixava o vidro e saudava o público — que o respondeu entusiasmado chamando-o de “Tony”. É uma cena que vale como anedota e como metáfora: num festival onde identidades se sobrepõem e se performam, o público continuamente reencaixa personagens, confundindo autor e papel, verdade e show.
Mais do que encerrar uma controvérsia, a declaração de Carlo Conti funciona como um convite a olhar para o episódio como um sintoma cultural: o humor regional, a convivência entre palco e plateia, e a tensão entre leveza e vigilância moral. O que parecia ser apenas um comentário de camarim transformou-se em um pequeno drama público — lembrando que, no roteiro oculto da sociedade, até uma piada pode revelar o estado de espírito de uma época.
Data: 4 de março de 2026






















