Por Aurora Bellini — Em um momento em que buscamos iluminar caminhos para um futuro mais sustentável, cresce a preocupação com as plantas medicinais que cruzam nossa história e cuidam de nosso bem-estar. Um novo relatório de Legambiente revela que espécies valiosas, de genciana a árnica, estão cada vez mais vulneráveis devido à crise climática, à perda e fragmentação de habitats, à coleta excessiva em estado selvagem e ao comércio ilegal.
Na Itália, a lista de espécies ameaçadas inclui a genciana (Gentiana lutea), a árnica (Arnica montana L.) e a artemísia nana, classificadas como vulneráveis (VU) ou quase ameaçadas (NT). A combinação da emergência climática e da pressão da colheita intensiva nas regiões alpinas e nos Apeninos está reduzindo populações inteiras. Soma-se a isso o uso intensivo do zimbro (Juniperus communis) pelas suas bagas aromáticas e a exploração de raízes como as do alcaçuz (Glycyrrhiza glabra), além da popularidade de plantas como a valeriana e a erva-de-São-João (Hypericum perforatum).
De forma particularmente preocupante, a genciana tem mostrado uma retração significativa de suas populações tanto nos Apeninos quanto nas Alpes, apesar de ser espécie protegida e constar no Anexo V da Diretiva Habitats — que regula o recolhimento de suas raízes na natureza para fins fitoterápicos e comerciais. Estimativas da IUCN indicam que, em algumas regiões mediterrâneas, o seu areal pode reduzir-se em mais de 50% entre 2050 e 2070 se as tendências atuais persistirem.
O peso econômico também é relevante: o setor de plantas medicinais na Itália movimentou mais de um bilhão de euros em 2023. O Piemonte é a região que lidera a produção, com cerca de 750 hectares dedicados ao cultivo — destacando a área de Pancalieri (entre Cuneo e Turim), famosa por culturas como hortelã-pimenta, melissa, sálvia, camomila, losna e echinacea. Esse mosaico de cultivo mostra que é possível conciliar produção e conservação, quando há políticas e práticas sustentáveis.
Em escala europeia, dados da IUCN apontam que 31% das plantas medicinais estão em declínio. E, segundo a CITES, globalmente entre 50.000 e 70.000 espécies de plantas medicinais, aromáticas e perfumadas (MAP) são coletadas por suas propriedades curativas — um número que ilumina a urgência de intervenções éticas e regulatórias para evitar perdas irreversíveis de biodiversidade.
Como curadora de progresso na Espresso Italia, vejo nessa conjuntura a necessidade de semear práticas que unam ciência, economia e ética. É preciso promover o cultivo responsável, fortalecer a fiscalização contra o comércio ilegal, apoiar programas de restauração de habitat e incentivar cadeias produtivas locais que valorizem o conhecimento tradicional sem esgotar a natureza. A proteção de espécies como a genciana não é apenas um imperativo ambiental: é preservar um legado terapêutico e cultural.
Nos nossos arquivos da Espresso Italia, reunimos reportagens e iniciativas que mostram caminhos já trilhados por comunidades e agricultores que cultivam com respeito à terra — histórias que iluminam novas possibilidades. Preservar essas plantas é, afinal, tecer um horizonte límpido para as próximas gerações: conservar saberes, garantir remédios e respeitar os ecossistemas que nos sustentam.
O que é preciso agora:
- Políticas públicas claras para monitoramento e proteção das espécies selvagens.
- Incentivo à agricultura sustentável e à certificação de plantas cultivadas.
- Campanhas de conscientização sobre a coleta responsável e os riscos do comércio ilegal.
- Investimento em pesquisas sobre o impacto climático nas populações de plantas medicinais.
Iluminar esses caminhos exige ação imediata e coordenada. Ao cuidar da biodiversidade, cultivamos também nosso futuro comum.






















