TORINO — Em torno da Giornata Mondiale delle Malattie Rare, a Scuola Holden abriu suas portas para a apresentação de Voci dall’Invisibile. Racconti che aprono sguardi, livro nascido do percurso de medicina narrativa intitulado “Raccontare l’invisibile”, promovido pela Scuola Holden com o contributo não condizionante de Ascendis. Mais do que o lançamento de um volume, a ocasião foi a restituição pública de um processo que coloca a relação de cuidado no centro da experiência clínica.
O encontro reuniu médicos, pacientes e cuidadoras/es que participaram dos laboratórios e transformaram vivências em relatos. Em diálogo aberto, clínicos e participantes alternaram reflexões sobre o percurso com leituras de fragmentos do livro — pequenos faróis que iluminam paisagens internas pouco visitadas pela narrativa tradicional da medicina.
O projeto envolveu pessoas que convivem com o hipoparatireoidismo, uma condição rara e crônica cujos sinais visíveis podem ser discretos, mas cujo impacto na vida cotidiana é profundo. Junto a elas, caregiveres e profissionais de saúde foram convidados a explorar emoções, receios e recursos interiores por meio de uma série de oficinas de escrita realizadas em três centros hospitalares: Ospedale Santa Maria della Misericordia, em Udine; Poliambulatorio LARC, em Pinerolo; e o Policlinico Universitario Campus Bio-Medico, em Roma.
Guiados pela linguagem da fábula, os participantes reconstruíram narrativas pessoais que revelaram metamorfoses, perdas e pequenas vitórias — imagens que, como sementes, germinam quando recebem escuta e cuidado. O professor Filippo Losito, da Scuola Holden, conduziu os encontros: “Nestes laboratórios, através do poder da narração, demos voz ao invisível que acompanha uma condição como o hipoparatireoidismo, transformando a experiência em palavra compartilhada”, explicou Losito. Segundo ele, “a metáfora e o símbolo se tornam instrumentos de abertura e cuidado”; num espaço seguro, o grupo funcionou como um “útero” simbólico capaz de converter sombras em luz.
Importante ressaltar que a proposta não pretende suplantar o rigor científico nem a prática clínica tradicional, mas somar a ela um espaço estruturado de escuta e reelaboração. A medicina narrativa emerge como uma abordagem respaldada por evidências que pode acompanhar a dimensão técnico-clínica com uma compreensão mais rica da experiência subjetiva da doença.
Para Antonio Stefano Salcuni, dirigente médico de Endocrinologia no Ospedale Santa Maria della Misericordia de Udine, os números, exames e laudos oferecem uma visão imprescindível, porém incompleta: é na linguagem e na partilha que se revelam os contornos emocionais e práticos da vida com uma doença crônica. Integrar essas narrativas ao cuidado cotidiano abre possibilidades concretas de melhoria na adesão terapêutica, no suporte ao cuidador e no próprio desfecho clínico.
Ao final, a apresentação em Turim não serviu apenas para devolver um livro ao público: tratou-se de devolver voz a trajetórias muitas vezes silenciadas. Como um vento que percorre as colinas e desperta a respiração da cidade, a iniciativa sugere que a escuta atenta é uma colheita de hábitos que nutre o bem-estar coletivo — uma pequena revolução cotidiana capaz de transformar a prática clínica em algo mais humano, sensível e conectado às raízes do viver.
Esta experiência abre caminhos: levar a medicina narrativa do espaço dos laboratórios para a rotina dos hospitais significa plantar novas possibilidades de cuidado, fazendo com que o invisível passe a ser visto e ouvido.






















