Por Marco Severini — A tensão no tabuleiro estratégico do Golfo Persa escalou hoje, com uma sequência de ações que desenham um redesenho de fronteiras invisíveis entre poderes regionais e globais. Segundo relatos oficiais, mísseis e drones provenientes do Irã caíram nas proximidades do aeroporto da enclave azeri de Nakhchivan, incidente que levou Baku a reservar o direito de adotar medidas de retaliação.
Em paralelo, o Estado do Qatar informou ter sofrido um ataque missileiro: fortes explosões foram ouvidas em Doha e colunas de fumaça foram vistas sobre a cidade, enquanto os seus sistemas de defesa antimíssil atuavam para interceptar a ofensiva, segundo comunicado do ministério da Defesa qatari.
O conflito assumiu contornos ainda mais amplos com a reivindicação da República Islâmica sobre um ataque a uma petroleira americana ao largo das costas do Kuwait. A embarcação, segundo fontes, está em chamas. Trata-se de um movimento que, numa leitura geopolítica, busca projetar poder marítimo e pressionar cadeias de suprimento estratégicas.
Um funcionário americano, ouvido pela rede Fox News e citado pela jornalista Jennifer Griffin, afirmou que milhares de combatentes curdos iraquenos teriam lançado uma ofensiva terrestre contra o Irã, ação que ampliaria a guerra por procuração na região. A alegação foi prontamente contestada por Aziz Ahmad, vice-chefe de gabinete do primeiro-ministro do Governo Regional do Kurdistan, que negou que curdos tenham cruzado a fronteira, qualificando a notícia como “evidentemente falsa”.
O secretário à Guerra americano Pete Hegseth esclareceu que o Exército dos EUA não está armando uma insurreição dentro do Irã, embora tenha indicado que outras instâncias do governo norte-americano poderiam estar envolvidas de maneiras não especificadas — sinal de uma emergência diplomática em múltiplas camadas.
No plano naval e de alianças, a Espanha anunciou o envio da sua fragata mais avançada, a Cristóbal Colón, para reforçar a proteção de Chipre após um ataque com drones que atingiu uma base britânica na ilha. A fragata espanhola se juntará à porta-aviões francesa Charles de Gaulle e a unidades da marinha grega para oferecer cobertura aérea e apoio a eventuais evacuações. O ministro italiano da Defesa, Guido Crosetto, declarou em Montecitorio que a Itália também mobilizará uma embarcação e sistemas de defesa antimíssil.
Ancora importante é a posição da Turquia, que monitora atentamente as movimentações de grupos curdo-iranianos (como o Pjak) instalados no norte do Iraque. Ancara declarou que não responderá, por ora, ao míssil iraniano interceptado sobre o seu espaço aéreo, embora reafirme o direito de fazê-lo, priorizando a restauração da estabilidade regional.
O conjunto de eventos — que se soma à operação conjunta EUA-Israel iniciada há seis dias — configura um momento de tectônica de poder no Oriente Médio. As peças no tabuleiro deslocam-se com objetivo claro: testar defesas, expandir projeção e forçar recalibrações nas linhas de alianças. Em curto prazo, a prioridade é a contenção do confronto direto entre estados e a proteção de rotas marítimas e centros civis; em médio prazo, o risco é a internacionalização de um conflito que ainda busca seus limites e objetivos estratégicos.
Enquanto as capitais europeias reforçam presenças militares e os atores regionais trocam acusações e medidas, resta aos diplomatas recompor os alicerces frágeis da diplomacia para evitar que o movimento decisivo neste tabuleiro se transforme em catástrofe generalizada.






















