Por Otávio Marchesini, Espresso Italia — O dia das Paralimpiadi de Milano-Cortina 2026 trouxe sinais contraditórios sobre a dimensão esportiva e política do evento. No gelo, a seleção italiana de curling em doppio misto sofreu a sua primeira derrota: Orietta Bertò e Paolo Ioriatti foram superados pela Estônia por 6-4.
A partida, disputada pela fase de round robin, revelou uma equipe italiana que alternou momentos de controle com lapsos defensivos decisivos. Após a vitória de estreia por 7-5 sobre a Coreia do Sul — jogo em que os azzurri abriram 4-0 até o terceiro end e resistiram à reação adversária — a derrota contra a Estônia mostra a irregularidade típica de equipes em processo de formação competitiva. A dupla italiana tem duelo de reposição marcado para as 19:05 contra a República Popular da China, tentando recuperar-se no torneio.
O dia foi também marcado por preocupação fora do tabuleiro do curling. O snowboarder Riccardo Cardani sofreu uma queda significativa durante um treinamento: o impacto quebrou o capacete e levou à perda de consciência por cerca de 45 segundos. Conforme comunicado oficial do Comitato Italiano Paralimpico, Cardani foi prontamente conduzido ao hospital para exames complementares, incluindo uma TAC. A equipe médica, em colaboração com a direção técnica e a presidência do Comitato, prioriza a saúde do atleta; por ora, sua participação nos jogos permanece em risco, visto que as primeiras qualificações estavam previstas já para o dia 7.
Além das questões esportivas e médicas, a edição paralímpica de 2026 enfrenta fortes tensões diplomáticas. A França anunciou o boicote às cerimônias de abertura e encerramento — abertura em Verona e encerramento em Cortina em 15 de março — em protesto pela presença de dez atletas da Rússia e da Bielorrússia, autorizados a competir sob suas bandeiras e hinos, marco inédito desde a invasão da Ucrânia em 2022. A ministra do Esporte, Marina Ferrari, justificou a medida como um sinal político que, ao mesmo tempo, respeita as instituições esportivas e manifesta desacordo com a decisão do IPC.
Outros países também se alinharam a gestos simbólicos de protesto: Ucrânia, República Tcheca, Finlândia, Polônia, Estônia e Letônia comunicaram ausências nas cerimônias, assim como o comissário europeu para o Esporte, Glenn Micallef. Curiosamente, o Comitê Paralímpico Francês manterá a participação nas competições, evidenciando a divisão entre gesto político e dever esportivo.
Agenda destacada (horários locais):
- 10:05 — Wheelchair curling: Round robin, Itália vs Estônia (Bertò, Ioriatti)
- 19:05 — Wheelchair curling: Round robin, Itália vs China (Bertò, Ioriatti)
Mais do que resultados, esse primeiro bloco de jogos e acontecimentos sublinha como os Jogos são uma intersecção entre desempenho, segurança e memória coletiva. As competições mostram o caráter imprevisível do esporte adaptado; as decisões políticas revelam tensões geopolíticas que atravessam a praxiss esportiva; e incidentes como o de Cardani lembram que a prioridade incontornável é a integridade física dos atletas.
Enquanto a atenção se volta para a recuperação de Cardani e para a resposta italiana no gelo, a narrativa de Milano-Cortina 2026 segue complexa: é evento esportivo, palco diplomático e, sobretudo, um espelho das contradições contemporâneas da Europa.






















