Por Marco Severini — A escalada entre Paquistão e Afeganistão assumiu, nos últimos dias, contornos de um confronto aberto, expressão de uma tensão crônica que reverbera na tectônica de poder da Ásia Central e do Sul. O movimento decisivo no tabuleiro ocorreu quando, na noite de 26 de fevereiro de 2026, forças ligadas aos Taleban afegãos abriram fogo em posições de fronteira, provocando a morte de militares paquistaneses. Em resposta, o ministro da Defesa paquistanês, Khawaja Asif, anunciou em 27 de fevereiro a operação “Ghazab Lil Haq” (“Ira da Justiça”).
Esse episódio reaglutina feridas antigas: em outubro de 2025 as partes haviam acordado um cessar-fogo temporário de 48 horas, mas a estabilidade sobre os alicerces do relacionamento bilateral mostrou-se frágil. O recomeço das hostilidades ocorre num momento em que o mapa de influências externas sobre Islamabad e Cabul se redesenha, entre as pressões dos Estados Unidos e a crescente proximidade com a China.
Ao centro desta crise encontra-se, novamente, o TTP — o Tehrik-e-Taliban Pakistan. Grupo de jihadistas paquistaneses com laços históricos com a Al-Qaeda e afinidades com segmentos dos talebans afegãos, o TTP é apontado por Islamabad como a raiz das incursões vindas do lado afegão. A acusação é simples no cálculo diplomático: Cabul estaria abrigando ou permitindo a operação desses militantes contra o Paquistão.
Do lado talibã, a narrativa é inversa. Zabihullah Mujahid, porta-voz do governo de Cabul, rechaçou as acusações e afirmou que os contingentes do TTP controlam vastas áreas dentro do próprio Paquistão, podendo operar sem necessidade de refúgio afegão. “O Paquistão não apresentou provas convincentes”, declarou Mujahid, ressaltando que o uso do território afegão por parte desses elementos seria inaceitável para a administração local.
Num plano adjacente, surgiu a controvérsia sobre a base de Bagram. Circulou a informação — cujas origens exigem verificação rigorosa — de um aporte de US$45 milhões ligado à administração Trump para manutenção ou operações relacionadas a Bagram. Tal alegação, verdadeira ou não, funciona como peça simbólica: evoca a persistente presença e influência americana na região, que se vê alternada e, por vezes, em competição com a aproximação sino-paquistanesa.
Donald Trump, em comentário realizado no primeiro dia da nova escalada, afirmou que “poderia intervir”, frase que abre espaço a interpretações estratégicas e diplomáticas. Na prática, qualquer intervenção direta teria implicações profundas para o equilíbrio regional, potencialmente ampliando um teatro já complexo, onde atores locais e externos movem peças com visões divergentes de segurança.
Além disso, Cabul acusou Islamabad de conceder refúgio a elementos do Estado Islâmico, em particular no território do Baluchistão — acusação que Islamabad nega e que complica ainda mais a já frágil confiança mútua. Assim, Islamabad se vê hoje numa encruzilhada entre o relacionamento tradicional com Washington e os laços econômicos e estratégicos com Pequim.
Como estrategista, deve-se observar que estamos diante de um redesenho de fronteiras invisíveis: não apenas linhas no terreno, mas corredores de influência, financiamento e apoio que atravessam sistemas estatais frágeis. A crise atual é menos uma anomalia do que um sintoma de um tabuleiro em mutação, onde atores regionais e globais testam limites e alianças.
Para que se restaure algum grau de estabilidade, serão necessárias medidas igualmente calculadas: verificação independente de incidentes de fronteira, mecanismos de comunicação militar direto entre Islamabad e Cabul, e um engajamento externo que privilegie desescalada sobre demonstrações públicas de força. Sem isso, a região corre o risco de ver a escalada local transformar-se em reconfiguração mais ampla — com consequências imprevisíveis para a segurança e a ordem regional.






















