Por Otávio Marchesini, Espresso Italia. A Paralimpiadi Milano Cortina 2026 abrirá oficialmente as competições com uma decisão que mistura logística e simbolismo político: na cerimônia de abertura, marcada para sexta-feira, 6 de março, as bandeiras nacionais não serão levadas por atletas, mas por voluntários. A medida — anunciada pelo Comitato Paralimpico Internazionale (IPC) — foi justificada como forma de garantir unidade entre as delegações e responder a exigências práticas, mas carrega implicações que ultrapassam o aparente pragmatismo.
Segundo o IPC, a alteração atende a razões logísticas: as provas estarão espalhadas por vários polos de competição e há longas distâncias até Verona, sede da cerimônia, além do calendário apertado, com início das disputas já na manhã de sábado. Para a Itália, os porta-bandeira inicialmente anunciados eram René de Silvestro, campeão paralímpico de monosci, e Chiara Mazzel, esquiadora alpina com baixa visão. A substituição por voluntários evita que atletas tenham de percorrer trajetos adicionais antes de suas provas.
No entanto, o gesto técnico ocorre num contexto político sensível. A decisão do IPC de admitir atletas russos competindo sob a sua bandeira e com hino tem provocado reações fortes: vários países anunciaram boicote à cerimônia de abertura — entre eles Ucrânia, Finlândia, Polônia, República Tcheca, Países Baixos, Estônia, Letônia e Lituânia. A Alemanha, que inicialmente planejava participar, reviu sua posição; o Comitê Paralímpico alemão declarou que a escolha visa concentrar-se nas competições e manifestar solidariedade à delegação ucraniana.
Uma cerimônia de abertura não é mero espetáculo: é um momento ritual que sintetiza valores, hierarquias e narrativas. Ao deslocar o ato simbólico de um atleta para um voluntário, o IPC tenta neutralizar um palco potencial de protesto ou constrangimento, preservando a imagem de inclusão e continuidade das provas. Mas essa solução técnica não dissolve o conteúdo político subjacente: o conflito entre a lógica de isolamento adotada por algumas nações e a posição do IPC sobre participação russa permanece em evidência.
Do ponto de vista histórico e cultural, os eventos esportivos de grande porte sempre serviram como termômetros das tensões geopolíticas. A decisão de admitir atletas de um país em conflito reacende questões sobre os limites entre desporto e política. Para as delegações e para o público, a ausência de atletas nas funções cerimoniais é um sinal ambíguo — leitura tanto de pragmatismo quanto de acomodação institucional diante de pressões externas.
As Paralimpiadi de Inverno vão até 15 de março. Resta acompanhar se a mudança produzirá o efeito desejado de reduzir atritos visíveis durante a abertura, ou se apenas deslocará o debate para outros espaços do evento — corredores de delegações, entrevistas coletivas e, eventualmente, as próprias competições, onde silêncios e gestos valem tanto quanto palavras.
Em uma temporada em que o esporte global volta a ser palco de disputas identitárias, a escolha do IPC traduz uma tentativa institucional de contornar confrontos diretos. Mas a história lembra que simbolismos raramente desaparecem porque são rearranjados: transformam-se, persistem e forçam escolhas públicas. A cerimônia de abertura de Verona poderá, assim, ser avaliada tanto pelo seu brilho técnico quanto pelo que omite deliberadamente.






















