Por Marco Severini — Na sala dos grupos parlamentares, próxima a Montecitorio, a manhã de quarta-feira teve a solenidade da apresentação da Relazione annuale dell’intelligence. A data escolhida — 4 de março — não é casual: recorda a morte de Nicola Calipari, vinte e um anos atrás, um lembrete solene das consequências humanas das decisões estratégicas, conforme lembrou o subsecretário Alfredo Mantovano, autoridade delegada à segurança da República.
Ao redor da mesa estavam atores institucionais de topo: o presidente da Câmara, Lorenzo Fontana; o prefetto Vittorio Rizzi, diretor do Dis; e os diretores do Aise e do Aisi, Giovanni Caravelli e Bruno Valensise. O fio condutor do encontro é o título da Relazione: “Governare il cambiamento”.
O diagnóstico é claro e exige uma leitura estratégica: os cenários de segurança nacional são múltiplos e evoluem com rapidez. Em primeiro lugar, o quadro tecnológico. «Vivemos um momento em que a tecnologia deixou de ser apenas inovação para se tornar motor do cambio e factor central na segurança do País», afirmou o diretor do DIS, Vittorio Rizzi. A coexistência entre inteligência artificial e novas fronteiras científicas — particularmente as tecnologias quânticas — introduz rupturas relevantes na segurança das comunicações e na proteção de informações sensíveis.
Essas transformações tecnológicas operam como lentes pelas quais devem ser avaliados outros vetores: geopolítica, demografia — com projeções de queda marcante da população em idade ativa — e fluxos migratórios. No centro das atenções estão as ameaças: o domínio cibernético registrou um aumento significativo de alvos públicos, que passaram a representar 68% contra 50% em 2024; 17% desses alvos públicos são estruturas de saúde. Ao mesmo tempo, os alvos privados sofreram uma diminuição, de 49% para 31%.
Há, também, a dimensão das ameaças híbridas: um leque de ações — manipulação, desinformação, domínio cognitivo — que atinge espaços estratégicos do corpo político e social. Estas não são escaramuças isoladas: são ataques sobre a percepção, sobre a própria capacidade de decisão democrática.
O diagnóstico do DIS é contundente: «É necessário uma nova postura para captar sinais que se manifestam de forma cada vez menos evidente», disse Rizzi. Em termos práticos, isso implica elevar as capacidades de inovação tecnológica e integrá-las numa arquitetura de defesa coerente, de forma que o Estado permaneça soberano e democrático. Mantovano, com voz institucional, indica a prioridade para 2026: tornar mais adequadas as capacidades de defesa e resposta a crises multifacetadas. Um ataque cibernético em larga escala pode tornar indisponível um conjunto de serviços vitais e não pode ser enfrentado isoladamente por administrações fragmentadas.
O retrato desenhado pela Relazione aponta falhas de governança: sobreposição de competências e duplicações que fragilizam os alicerces da segurança nacional. A proposta subjacente é clara — reorganizar processos decisórios, estabelecer mecanismos de coordenação e construir um ambiente de resposta que funcione como uma defesa em camadas, tanto tecnológica quanto institucional.
Do ponto de vista geoestratégico, há um deslocamento de influências que obriga a leitura em termos de tectônica de poder: quem dominar as tecnologias fundamentais — da IA às comunicações quânticas — exercerá capacidade distributiva de poder sobre infraestruturas críticas e sobre a própria narrativa pública. A inteligência, por sua natureza, deve transformar-se: não mais apenas observadora, mas protagonista na construção das políticas públicas que mitigam riscos e moldam resilientes linhas de resposta.
Em resumo, a Relazione anual lança um chamado ao Estado para jogar um movimento decisivo no tabuleiro: reforçar a arquitetura de segurança, integrar capacidades, e compreender que a batalha contemporânea se trava tanto nas redes digitais quanto nas percepções coletivas. Sem essa visão holística, os alicerces da diplomacia e da ordem doméstica permanecem demasiadamente frágeis diante das novas formas de conflito.
Marco Severini é analista sênior em geopolítica e estratégia internacional da Espresso Italia.






















