Por Otávio Marchesini, repórter de Esportes da Espresso Italia
A cerimônia de abertura das Paralimpiadas de Inverno Milano‑Cortina 2026 acontecerá nesta sexta-feira na Arena di Verona, com a presença artística de Dardust (Dario Faini), autor da trilha sonora oficial intitulada “Fantasia Italiana”. O compositor e produtor — com estilo que combina piano, eletrônica minimalista e toques neoclássicos e cinematográficos — foi escolhido para traduzir em som o conceito “Life in Motion”, homenagem à vida enquanto processo de transformação contínua e ponte entre territórios e comunidades.
O papel de Dardust na cerimônia não é apenas simbólico. Ao entrelaçar tradição e modernidade, a energia urbana e a solenidade das altitudes alpinas, sua música pretende consolidar uma identidade sonora para os Jogos — um gesto cultural que busca fixar, na memória coletiva, a marca desses eventos no mapa europeu.
Competição: início das disputas e destaque italiano
Antes mesmo do espetáculo cultural em Verona, as provas já começam. Às 18h55 a Itália entra em quadra/parque de gelo para o duelo de abertura do wheelchair curling: a dupla mista composta por Orietta Bertò e Paolo Ioriatti enfrentará a República da Coreia às 19h05 no Cortina Curling Stadium.
É simbólico que a organização tenha escolhido uma modalidade marcante para iniciar as competições: o wheelchair curling é, por si só, uma imagem poderosa da adaptação técnica do esporte e da persistência humana. Para a Itália, disputar em casa tem camada adicional de significado — continuidade de uma narrativa que poucos dias antes celebrara os êxitos olímpicos de Milano‑Cortina.
Controvérsia política e boicote
Entretanto, os Jogos Paralímpicos chegam com uma sombra política que dificilmente ficará restrita ao protocolo. O governo ucraniano anunciou boicote à cerimônia de abertura, posição seguida por atletas paralímpicos ucranianos que optarão por não desfilar. A medida é reação direta à decisão do Comitê Paralímpico Internacional (IPC) de permitir a participação de delegações da Rússia e da Bielorrússia com suas bandeiras, uniformes e hinos nacionais — condição que difere do regime de neutralidade adotado em edições anteriores.
O IPC, por sua vez, justificou que nenhum atleta fará o papel de porta‑bandeira na abertura e que a ausência de delegações nas filas se deve, oficialmente, à “distância dos locais de competição no dia seguinte”. Ainda assim, muitas das 56 nações haviam anunciado que não desfilariam; o protocolo prevê que voluntários substituam os atletas nas entradas e que imagens gravadas dos porta‑bandeiras sejam exibidas na transmissão televisiva.
Essa interseção entre esporte e diplomacia não é novidade, mas volta a lembrar que eventos globais continuam a ser palcos onde se negociam símbolos de soberania e dignidade. As decisões de boicote ressoam além das arenas: questionam como federações e organismos internacionais equilibram princípios competitivos, sancionamentos e a busca por inclusão.
O que esperar nos próximos dias
As Paralimpiadas decorrem de 6 a 15 de março entre Milano, Cortina d’Ampezzo, Tesero e Verona. Entre a solenidade e as disputas, estarão presentes narrativas sobre recuperação física, inovação esportiva e tensão geopolítica. Para os italianos, além do dever de casa competitivo, cabe a tarefa simbólica de oferecer um palco que honre a diversidade de performances e respeite, ao mesmo tempo, os clivagens que atravessam a Europa contemporânea.
Nos próximos dias, acompanharei — com olhar histórico e contextual — tanto os resultados quanto os desdobramentos institucionais que esses Jogos devem provocar. O esporte paralímpico, em particular, permanece um espaço onde conquistas individuais se tornam também instrumentos de memória coletiva e debate público.
Programação de abertura relevante (horários locais):
- 18:55 — Itália entra em disputa no wheelchair curling (duplo misto)
- 19:05 — Itália x República da Coreia, Cortina Curling Stadium






















