Por Chiara Lombardi — Em mais um capítulo do que já se tornou o espelho dos dilemas institucionais do teatro contemporâneo, Domenico Muti, gestor cultural e filho do maestro Riccardo Muti, comunicou sua saída imediata do cargo de consultor da Fundação La Fenice de Veneza. A decisão, formalizada em carta enviada ao superintendente Nicola Colabianchi e cujo teor foi consultado pela Espresso Italia, explica-se pela deterioração do clima institucional após críticas públicas feitas por sindicatos.
Na missiva, Domenico Muti afirma que “o clima que foi criado não me permite levar adiante com serenidade o meu encargo”. Como gesto incontroverso e simbólico, comunicou também a renúncia aos valores já auferidos e aos que ainda não tinham sido solicitados ou pagos — uma escolha que funciona como um pequeno gesto performático diante do debate sobre opacidade e transparência que atravessa o caso.
Muti agradeceu ao superintendente pela nomeação ao “importante encargo de consultor da Fundação Teatro La Fenice para as turnês internacionais”, cargo que havia aceitado com entusiasmo e a intenção de atuar com máxima profissionalidade, consciente da “gloriosa história” do teatro e das oportunidades de internacionalização.
Esta desistência é o desfecho mais recente do chamado caso Fenice, que remonta a setembro passado, quando Nicola Colabianchi nomeou Beatrice Venezi diretora musical a partir de outubro de 2026. A escolha suscitou resistência interna: a orquestra manifestou que o currículo de Venezi não estaria à altura do prestígio veneziano. Nas últimas semanas, em 1º de março, os sindicatos criticaram publicamente as consultorias externas contratadas pela Fundação, falando em falta de clareza e lembrando que, naquele momento, havia sido bloqueado o pagamento de benefícios sociais enquanto se procedia à verificação das contas.
Os termos do contrato de Domenico Muti constam no site da Fundação: um compromisso de três anos, com remuneração de 30 mil euros por ano, válido de 03/11/2025 a 02/11/2028. Outra consultoria apontada pelos sindicatos é a da agência Barabino & Partners, com custo reportado de 39 mil euros.
Em resposta aos sindicatos, em nota do dia 2 de março, Nicola Colabianchi defendeu ambas as consultorias: segundo ele, não se trataria de despesas que subtraiam recursos do teatro, mas de investimentos destinados a gerar receitas, reforçar a imagem da Fundação e impulsionar a internacionalização. Na leitura de Colabianchi, o papel do consultor — aqui preenchido por um gestor com duas décadas de experiência no setor — seria estratégico para proteger e ampliar o “brand” do teatro no circuito global.
Como observadora do zeitgeist cultural, não vejo este episódio apenas como uma sucessão de notas oficiais e recados sindicais. Trata-se de um pequeno roteiro sobre como instituições simbólicas enfrentam a tensão entre tradição, gestão moderna e escrutínio público: um verdadeiro reframe da realidade institucional, onde cada gesto — do contrato à renúncia — ressoa como cena numa narrativa maior sobre legitimidade e memória cultural.
Enquanto o debate segue, a saída de Domenico Muti deixa no ar perguntas fundamentais: quem define a representação do prestígio cultural? E como se negocia transparência num mundo em que a reputação internacional é também moeda? A Fenice continua a representar, para além do palco, o desafio contemporâneo de alinhar história e modernidade.






















