Bruxelas — Segundo a estimativa preliminar do Eurostat para fevereiro de 2026, a inflação na zona do euro acelerou para 1,9%, um aumento de 0,2 pontos percentuais em relação a janeiro. Trata‑se de uma inversão da tendência descendente que vinha vigendo desde fevereiro do ano passado. Na Itália, a inflação estimada é de 1,6%, ou seja, 0,6 pontos acima do mês anterior.
Os setores que mais pressionam os preços são os de serviços e de produtos alimentares. Os serviços exibem o maior índice anual em fevereiro, estimado em 3,4% (ante 3,2% em janeiro). A inflação para alimentos, álcool e tabaco foi estimada em 2,6%, com destaque para o cuidado no aumento dos preços do alimento não transformado, que atingiu 4,6% (era 4,2% em janeiro). Os bens industriais não energéticos registraram um aumento mais contido, em torno de 0,7%. Por sua vez, o setor energético continua a apresentar variação negativa: -3,2% em relação a fevereiro de 2025, uma queda menos pronunciada que os -4,0% observados em janeiro.
Entre os países da área do euro (que, desde 1º de janeiro de 2026, inclui também a Bulgária), os níveis mais elevados de inflação anual em fevereiro foram observados na Eslováquia (4,0%), seguida pela Croácia (3,9%) e por Estónia e Lituânia (3,2% cada). A Itália ficou abaixo da média da zona do euro com 1,6%, enquanto Chipre registou a menor inflação (0,9%). Importa sublinhar que estes números são estimativas flash; os dados definitivos e completos para todos os Estados‑membros serão divulgados a 18 de março de 2026.
A Banca Central Europeia (BCE) manifestou séria preocupação com a recente escalada dos preços do petróleo, provocada pelos ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irã, que levaram os preços aos níveis mais altos desde o início de 2025. A presidente Christine Lagarde enfatiza o risco de um novo choque energético capaz de reavivar pressões inflacionárias e de travar o crescimento — um cenário que torna improvável um corte das taxas de juro previsto para 19 de março. Assim, a política monetária europeia tende a permanecer cautelosa, procurando não comprometer os ganhos obtidos na estabilização dos preços após a anterior crise energética.
Do ponto de vista geopolítico e estratégico, esta leitura preliminar dos números é um movimento no grande tabuleiro onde energia, conflito e política monetária se cruzam. A persistência de pressões vindas dos serviços e dos alimentos revela fragilidades estruturais na recuperação do poder de compra, enquanto a oscilação dos preços de energia funciona como um tremor sísmico que pode redesenhar fronteiras invisíveis de risco económico. A BCE, por sua vez, atua como um jogador cauteloso, ponderando cada peça antes de avançar — porque um corte prematuro das taxas seria um risco para os alicerces frágeis da diplomacia económica construída desde a última crise.
Em termos práticos, a combinação de inflação elevada nos serviços, subida dos alimentos não processados e a vulnerabilidade ao preço do petróleo desenha uma tectónica de poder que exige coordenação entre política fiscal e monetária, bem como vigilância estreita dos riscos geopolíticos. Os decisores têm pela frente o dilema clássico do xadrez macroeconômico: defender os ganhos de estabilidade alcançados sem sacrificar a recuperação.
Marco Severini — Espresso Italia. Analista sénior em geopolítica e estratégia internacional.






















