Bruxelas — Em um quadro que exige leitura estratégica, o mais recente relatório anual do Conselho da Europa desenha um cenário alarmante: a liberdade de imprensa na Europa sofreu em 2025 pressões contínuas e multifacetadas, fruto de uma combinação de ameaças legais, ataques físicos, intimidações, tentativas de sequestro de meios e uma repressão de caráter transnacional. O documento, publicado em 3 de março, funciona como um inventário clínico das fraturas nos alicerces democráticos.
Os números são explícitos: parceiros da plataforma do Conselho da Europa para promoção da proteção do jornalismo e da segurança de jornalistas registraram 344 relatos de graves ameaças à liberdade dos meios em 2025 — um crescimento de 29% face aos 266 casos de 2024. Entre os países mais afetados figuram Rússia (50 relatos), Turquia (49), Geórgia (35), Sérvia (35) e Ucrânia (27). O relatório sublinha, ademais, que documentar acontecimentos públicos tornou-se mais arriscado, pois “em toda a Europa, durante as manifestações, jornalistas foram frequentemente agredidos fisicamente por forças policiais, representantes políticos e manifestantes”.
Não há exceção nacional clara: a Itália surge no relatório como exemplo de risco de controle estatal sobre os meios. Embora o documento não cite nominalmente a RAI, indica que os países com maiores índices de risco de interferência política nos media públicos incluem Hungria, Malta e Turquia, seguidos por Eslováquia, Bósnia-Herzegovina, Itália, Croácia, Polônia, Grécia, Sérvia e Romênia — uma lista que sublinha o redesenho invisível das fronteiras de influência na cena mediática europeia.
O relatório dedica atenção particular ao caso italiano de espionagem política contra orgãos de imprensa críticos do governo. Em junho de 2025, dois jornalistas italianos — Francesco Cancellato, editor-chefe do Fanpage, e Ciro Pellegrino, responsável pela redação de Nápoles — foram alvo do spyware Graphite, desenvolvido pela empresa israelense Paragon Solutions. Um terceiro jornalista optou por manter o anonimato. As investigações apontaram que o software foi usado para monitorar jornalistas críticos e membros da sociedade civil.
O episódio ganha maior gravidade diante da persistente falta de desfecho: até o momento, as investigações nacionais não produziram responsabilizações. A resposta lenta das autoridades motivou o presidente da Federação Nacional da Imprensa Italiana (FNSI), Vittorio Di Trapani, a denunciar a “inaceitável inação”, mobilizando a FNSI em busca de esclarecimentos e medidas concretas.
Como analista, observo que o relatório do Conselho da Europa funciona como um mapa tectônico: não registra apenas eventos isolados, mas descreve o movimento de placas de poder que tensionam o espaço público. Em termos de diplomacia informativa, trata-se de um movimento decisivo no tabuleiro — exige respostas coordenadas das instituições europeias e nacionais para restaurar a independência dos media públicos, proteger jornalistas e recompor os alicerces frágeis da democracia deliberativa.
Em suma, a emergência não é apenas técnica ou jurídica: é estratégica. A erosão da liberdade de imprensa compromete a capacidade das sociedades de se autoconstituírem politicamente. As vigilâncias tecnológicas, as pressões políticas e as agressões físicas formam, coletivamente, uma nova tectônica de poder que impõe escolhas claras aos Estados membros e às instituições europeias.

















