Quarta-feira, às 21h15, na La7, um encontro entre história, música e memória transforma a televisão em palco de reflexão: Aldo Cazzullo assina a primeira‑noite evento San Francesco: Il primo italiano, inserida em uma edição especial de Una Giornata Particolare. O programa é tanto um espetáculo quanto uma oratória cívica — um convite a escutar um personagem cuja vida funciona como espelho do nosso tempo.
Filmado entre os afrescos de Giotto na Basilica de Assisi, onde se conserva o corpo de São Francisco, o relato de Cazzullo ganha voz também pela música de Angelo Branduardi, que empresta melodias e interpretações às próprias palavras do Santo. A montagem percorre a trajetória inteira de um homem que renuncia aos encantos do luxo em nome da pobreza — não como escárnio, mas como instrumento de liberdade e proximidade divina — e que chega a ser repudiado por seu pai por essa escolha revolucionária.
O ponto de virada na vida de Francisco é narrado com delicadeza: o encontro com os leprosos, os excluídos medievais, que viviam segregados e anunciavam sua presença com um campainha. O Francisco jovem, acostumado a evitá‑los, faz algo que ninguém ousara: entrega tudo que tem ao enfermo, abraça‑o e o beija. É esse gesto que, segundo Cazzullo, sintetiza a lição do Santo: os dons de Deus não nos pertencem; a felicidade que ele propõe é vencer o sofrimento com um sorriso, suportar injustiças com alegria. O novo pai de Francisco é Deus, e ele encarna um novo tipo de figura cristã, um «novo Jesus» no modo de viver e ensinar.
Com contribuições de peso — o cardeal Zuppi, o cantor Jovanotti e a escritora Dacia Maraini — o espetáculo afirma a atualidade de um legado que toca aspectos essenciais da nossa identidade cultural: a invenção do presépio, a pioneira poesia em vernáculo representada pelo Cantico delle Creature, a renovação da pintura e do teatro pelas predicações itinerantes, e o gesto fundador de chamar a todos de «frati», termo que ele popularizou.
São Francisco emerge aqui como precursor do humanismo e como emblema de uma história que ajuda a moldar nossa identidade coletiva: amar a criação, devolver poder a quem não o busca, e proclamar a igualdade radical entre os seres. É uma figura de paz posta diante de uma era marcada por conflitos e discursos que se dizem em nome de Deus. Cazzullo reflete sobre essa atualidade com acuidade: lembra como regimes e figuras públicas, ao alegarem falar em nome do divino, podem se transformar em instrumentos de opressão — e que, por isso, a figura franciscana nos força a perguntar o que faríamos hoje se tivéssemos sua urgência moral.
Nesta peça televisiva que mistura história, música e testemunho, o roteiro oculto da sociedade reaparece: São Francisco não é apenas um personagem do passado, mas um refrão crítico que nos convida a reavaliar prioridades e a escutar o silêncio dos marginalizados. Ao transformar memórias em cena, Cazzullo e Branduardi oferecem mais que entretenimento: propõem um reframe da realidade, onde fé, arte e política entram em diálogo.
Para quem acompanha cultura e sociedade, o especial funciona como um espelho cultural: o que o século XXI pode aprender com a radicalidade fraterna de um homem que abraçava leprosos e rimava com as criaturas do mundo? A resposta vem em forma de imagens, música e testemunhos — uma narrativa que ressoa como uma prece civil para tempos inquietos.






















