Por Marco Severini
Em uma declaração que redesenha, com franqueza e crueza estratégica, as linhas de influência no Oriente Médio, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, condicionou publicamente a viabilidade do retorno de Reza Pahlavi ao cenário iraniano e ofereceu pela primeira vez detalhes concretos — ainda que parciais — sobre os planos de Washington para uma mudança de regime em Teerã.
Segundo Trump, em tom seco vindo do Estúdio Oval e na presença do chanceler alemão Friedrich Merz, o sucessor de Ali Khamenei deverá ser alguém com base de apoio interna, o que, nas palavras do presidente americano, inviabilizaria a opção Pahlavi: “Ele é uma boa pessoa, mas eu preciso de alguém que seja popular em seu país“. A lógica é simples e dura: no tabuleiro de xadrez da política iraniana, uma peça externa, por mais legitimada por passado dinástico, não garante mobilização popular suficiente.
Trump também admitiu que muitos dos nomes cogitados para a liderança pós-Khamenei podem já ter sido eliminados pelos ataques recentes. “A maioria das pessoas que tínhamos em mente estão mortas”, disse, acrescentando que o grupo alternativo também corre riscos, numa alusão implícita ao atentado contra a Assembleia dos Especialistas, reunida para escolher o sucessor do aiatolá. “Podem ser mortos também, com base nas notícias”.
Na leitura do presidente, a morte do líder supremo provocou uma fase de contornos incertos, na qual figuras emergem para pedir imunidade e a luta poderá ceder lugar a negociações internas: “Agora que o capobranco está morto, muitos se apresentam para pedir imunidade e, em algum ponto, cessará o combate e veremos o que acontecerá”. É uma descrição de tectônica de poder: fracturas e realinhamentos que só se selam quando os vetores de influência se estabilizam.
Sobre o curso das operações militares, Trump não quantificou a duração, mas afirmou que elas “estão indo muito bem” e afirmou que as capacidades militares de Teerã foram severamente afetadas. “Não resta praticamente nada: a aviação foi, a marinha foi, a defesa antiaérea foi, e eles não têm mais muitos mísseis”, declarou, posicionando Washington como arquiteto de um redesenho — ainda que parcial — dos alicerces militares iranianos.
Ao mesmo tempo, o presidente teceu críticas contundentes a aliados. Elogiou a postura da Alemanha — “está fazendo um trabalho fantástico” — e reservou adjetivos duros para a Espanha, que teria se recusado a ceder bases para operações contra o Irã: “É terrível”, afirmou, prometendo cortes comerciais e ordenando ao secretário do Tesouro, Scott Bessent, que “corte todos os negócios com Madrid”. A resposta de Madri ressaltou o compromisso da Espanha com a OTAN e sua relevância comercial global.
O relacionamento com o Reino Unido também não escapou das críticas, com Trump afirmando que foram necessários “três ou quatro dias” apenas para definir locais de pouso para as operações lançadas a partir das bases britânicas — um episódio que, na leitura estratégica, expõe fragilidades logísticas e diferenças de ritmo entre aliados.
Do ponto de vista geopolítico, trata-se de um movimento decisivo no tabuleiro: Washington não só refina sua lista de potenciais interlocutores iranianos como também reaperta as tensões dentro da aliança transatlântica, testando lealdades e reservas. A arquitetura clássica da diplomacia é posta à prova pelos novos vetores de poder — com consequências que podem redesenhar fronteiras invisíveis e redefinir a estabilidade regional.





















