Por Marco Severini — A tectônica de poder que descreve conflitos contemporâneos sofreu uma série de movimentos discretos, mas decisivos. No centro desse redesenho está um artefato de custo relativamente baixo: o drone Shahed-136. Originário do Irã, esse veículo aéreo não tripulado de ataque tornou-se um elemento disruptivo no recente confronto entre Irã, Estados Unidos e Israel, e traz lições diretas da guerra na Ucrânia para as petromonarquias do Golfo.
O Shahed (palavra persa que pode ser traduzida como “testemunha da fé” ou “mártir”) é um sistema de longo alcance, barato e com precisão suficiente para variar a dinâmica da vigilância e da defesa. Sua popularização começou quando a Rússia o importou de Teerã e, a partir do outono de 2022, o utilizou em operações contra centros urbanos ucranianos. A resposta russa incluiu um investimento maciço — cerca de dois bilhões de dólares — para produzir, sob licença, a variante local denominada Geran-2.
Da experiência ucraniana surgiu uma lição prática: a necessidade de uma defesa aérea em camadas. Kiev adaptou rapidamente seus sistemas, combinando sensores, interceptores de baixo custo e táticas de dispersão para mitigar a massa dos ataques por drones. É essa arquitetura de defesa, construída sobre princípios de eficiência e redundância, que os países do Golfo agora precisam absorver com urgência.
O episódio no Golfo marca outro avanço estratégico. Pela primeira vez, os Estados Unidos empregaram uma cópia do conceito iraniano — o drone de ataque “one way” chamado Lucas (Low-cost Unmanned Combat Attack System) — em um teatro de operações desta natureza. A matemática por trás do fenômeno é clara: um drone Lucas custa cerca de 35 mil dólares; um míssil de cruzeiro Tomahawk, por sua vez, chega a custar 2,5 milhões de dólares. Essa simples discrepância de custos está alterando decisões de emprego e esgotando, em ritmo acelerado, os estoques de interceptores sofisticados e caros nas monarquias do Golfo.
Os números relatados são ilustrativos dessa mudança de equilíbrio: mais de mil drones lançados contra países vizinhos ao Irã em poucas jornadas, dos quais 689 atingiram os Emirados Árabes Unidos — embora apenas 44 tenham causado impacto direto no solo. A disparidade entre tentativas e efeitos úteis não anula, porém, o desgaste imposto às defesas contrárias, que precisam gastar interceptores caros para neutralizar ameaças de baixo custo.
Steve Feldstein e Dara Massicot, em estudo recente para o Carnegie Endowment, sublinham um ponto crucial: a inovação militar não é monopólio dos economicamente avançados. A austeridade econômica aplicada ao projeto e à produção de armas pode gerar vantagens estratégicas quando a massa é um fator. Em outras palavras, caiu o dogma de que apenas orçamentos elevados produzem vantagens decisivas em campo.
Para as potências regionais do Golfo, a lição é clara e dura como pedra angular: reforçar as camadas da defesa aérea, investir em soluções de baixo custo e diversificar fontes e táticas. Em termos geopolíticos, trata-se de mover peças no tabuleiro com senso de economia e resiliência — adotando uma arquitetura de defesa que tolere a erosão gradual dos arsenais caros e preserve a estabilidade estratégica.
O impacto do drone Shahed-136 é, portanto, duplo: técnico, por alterar a relação custo-eficácia entre atacantes e defensores; e político, por acelerar a necessária modernização das defesas das monarquias do Golfo e, ao mesmo tempo, testar os alicerces frágeis da diplomacia regional. Como analista do tabuleiro global, vejo nessa mudança um convite para repensar conceitos herdados de dissuasão: quando a massa conta e o custo domina, a estratégia deve se tornar tão arquitetônica quanto militar.





















