Por Chiara Lombardi — Em um Brasil que observa culturas e espetáculos italianos com o olhar crítico do século XXI, o recente fenômeno em torno de Sal Da Vinci e Stefano De Martino surge como um pequeno espelho do nosso tempo. O triunfo de Sal Da Vinci no Festival e a nomeação de Stefano De Martino como novo condutor e diretor artístico do Festival de Sanremo (edição 2027, na esteira do vencedor de 2026) têm gerado uma reação que une e separa, atravessando filiações políticas e guetos culturais.
O que exatamente une esses dois nomes? À primeira vista, nada além do palco e da imagem pública. Mas, ao observar com um pouco mais de atenção, percebe-se um projeto comum: figuras que trabalham para serem compreendidas por todos. Eles se apresentam sem artifícios retóricos, estendendo simbolicamente as mãos para o público — um gesto quase táctil de empatia que, no fundo, é a receita de sua popularidade. É essa proximidade que os transforma em símbolos bipartidários, figuras que confortam tanto a direita quanto a esquerda, e que irritam com a mesma intensidade os haters de teclado.
Há uma lição explícita aqui para a política: a habilidade de construir massificação não vem do palavreado distante ou do exibicionismo de elite, mas da capacidade de trabalhar em grupo e se tornar parte de uma narrativa coletiva. Stefano De Martino olha para o coletivo — seus companheiros de viagem como Francesco Paolantoni, Peppe Iodice e Giovanni Esposito — e constrói um projeto coral. Sal Da Vinci, por sua vez, carrega laços familiares e uma rede afetiva que aponta para a canção Per sempre sì, coassinado pelo filho Francesco, exemplo de como intimidade e profissão se unem para gerar ressonância cultural.
Essa dupla performance — do palco e do carisma — poderia muito bem ser objeto de uma aula nas Frattocchie: ensinar a uma elite cultural às vezes distante como se entra no coração da gente. Mas também há uma outra moral: para uma certa direita individualista, Sal e Stefano mostram que o êxito duradouro se constrói com trabalho coletivo, não com solipsismo midiático.
É curioso observar como artistas napolitanos, quando viajam juntos, costumam colher vitórias nacionais e duradouras. Não é apenas destino geográfico: é um reframe cultural onde a tradição, a família e a comunidade viram estratégia estética e política. Em tempos em que o entretenimento é frequentemente reduzido ao ruído das audiências, o caso desses dois artistas resgata a antiga virtù de fazer espetáculo sem perder a textura humana.
Se quisermos tirar um ensinamento mais amplo, é este: a semiótica do viral e o roteiro oculto da cultura popular nos mostram que autenticidade e grupo podem ser armas de construção social. E, se a política quiser aprender, que aprenda com quem sabe conversar com o povo — com voz clara, braços abertos e uma canção que, de tão simples, se torna universal.






















