Por Chiara Lombardi — Em um momento em que o cinema comercial parece cada vez mais governado por algoritmos, marcas e fórmulas seguras, chega um filme que funciona como um espelho do nosso tempo e, ao mesmo tempo, como um convite à insurgência poética. Nouvelle Vague, de Richard Linklater, reconstrói com humor e ternura os dias em que se fez um dos marcos da história do cinema: Fino all’ultimo respiro (À bout de souffle), de Jean‑Luc Godard. O resultado é um exercício meta‑cinematográfico que não se limita à reconstituição histórica: é sobretudo um elogio àquilo que o cinema tem de urgente e necessário.
Na superfície, o filme tem o sabor de um film historique: acompanhamos a gênese de um clássico da Nouvelle Vague, o calor das discussões nos escritórios da crítica, os encontros e desencontros com produtores, a busca pelo ator ideal e a sedução pelo rosto certo para encarnar um novo modo de contar histórias. Mas Linklater — que já demonstrou afinidade com a liberdade narrativa e o espírito de renovação — usa essa reconstrução como pretexto para questionar o presente. Que cinema queremos? Quais regras valem a pena manter e quais precisamos esquecer?
A trama, desenvolvida a partir de um roteiro de Holly Gent e Vincent Palmo Jr. com intervenção notável do próprio diretor, coloca em cena o jovem Godard (interpretado por Guillaume Marbeck) como o último dos críticos dos Cahiers du Cinéma a se lançar atrás das câmeras. Vemos o triunfo de François Truffaut (Adrien Rouyard) em Cannes com Os 400 Golpes, as conversas com o produtor Georges de Beauregard (Bruno Dreyfürst), a escolha de Jean‑Paul Belmondo (Aubry Dullin) e a corte a Jean Seberg (Zoey Deutch) para aceitar o papel feminino. A formação da equipe — com o assistente de direção Pierre Rissient (Benjamin Clery) e o operador Raoul Coutard (Matthieu Penchinat) — é recriada com detalhes que remetem à textura de uma época fervilhante, onde cada gesto artístico parecia carregar o peso de uma transformação social.
Há cenas encantadoras que combinam reverência e irreverência: a visita de Jean‑Pierre Melville (Tom Novembre) ao set, os debates sobre forma e moral do cinema, e o momento íntimo em que Godard, fiel ao conselho atribuído a Roberto Rossellini, interrompe uma filmagem por falta de ideias — e para esperar a inspiração, entrega‑se ao fliperama. Essa imagem, quase cinematográfica em si mesma, funciona como símbolo: a criação é tanto disciplina quanto jogo, rigor moral e surpresa lúdica.
O filme defende uma ideia clara, anunciada por uma fala marcante: “O cinema é uma questão de moral. Não existe técnica que capture a realidade; só uma moral rigorosa pode fazê‑lo. A câmera é uma caneta, mas é inútil se não se tem nada a dizer.” Essa máxima atravessa a obra de Linklater com a elegância de quem sabe que a tradição não é cadeia, mas material para reinvenção. Nouvelle Vague celebra, portanto, a paixão insistente de fazer cinema por necessidade — não por cálculo de mercado — e nos lembra que os grandes filmes nascem muitas vezes da urgência e da coragem de contrariar regras.
Tecnicamente, o filme aposta em uma paleta que remete ao preto e branco e aos grãos da película, sem cair no pastiche. A direção de arte, a fotografia e a reconstrução dos ambientes parisienses dão verossimilhança, enquanto a encenação privilegia a vivacidade dos diálogos e o improviso controlado — como se estivéssemos assistindo ao roteiro oculto da história do cinema sendo escrito diante de nós.
É justo classificar Nouvelle Vague como uma obra‑ponte: conecta a memória da vanguarda francesa ao presente, sem diluir as contradições daquela época. O filme é uma aula de como a admiração pode virar gesto crítico e um lembrete de que o cinema, quando se mantém fiel a uma ética de criação, conserva o poder de nos transformar. Por tudo isso, a avaliação de Mereghetti — nota 8 — soa coerente: estamos diante de um filme que é, antes de tudo, um inno à alegria do cinema.
Em tempos de fórmulas repetidas, Linklater nos presenteia com a sensação rara de assistir a um filme que insiste em nos ensinar a olhar. Como quem volta a uma velha sala de projeção e reencontra um amigo, Nouvelle Vague é o reframe da memória cinematográfica — um convite para lembrar que o verdadeiro filme acontece quando a necessidade criativa encontra a coragem de ser singular.






















