Por Chiara Lombardi — A cidade que é espelho do tempo recebe, pela primeira vez em Roma, Titizé — A Venetian Dream, a nova criação da Compagnia Finzi Pasca, em cartaz no Teatro Olimpico para a temporada da Accademia Filarmonica Romana de 4 a 8 de março de 2026. Depois de uma extensa tournée europeia que reuniu mais de 80 mil espectadores e com destino marcado ao México, o espetáculo pousa na capital italiana como um convite à contemplação: a relação entre Venezia, a água e o humano vista através da poética do espelho.
Titizé é uma expressão teatral que aposta na maravilha e no assombro. Escrita e dirigida por Daniele Finzi Pasca, fundador da companhia sediada em Lugano, a peça inaugura um diálogo entre linguagens — a clowneria universal, a dança, a música e o teatro acrobático — que torna a experiência acessível a plateias de todas as idades e nacionalidades. Trata-se de um tipo de dramaturgia visual que privilegia a imagem, o gesto e o som em vez da palavra, uma escolha estética que funciona como um «grammelot hiperbólico», capaz de falar direto ao sensível.
A produção, oficial da cidade de Veneza, traz música de Maria Bonzanigo, interpretada pela Orchestra di Padova e del Veneto sob a regência de Pasquale Corrado, com a participação do Coro Città di Piazzola sul Brenta. A cenografia é assinada por Hugo Gargiulo, assistido por Matteo Verlicchi, e os figurinos por Giovanna Buzzi — um time técnico que sustenta a ambição plástica do projeto e cria máquinas de cena inovadoras para dar forma a miragens e alusões.
Há algo de cinematográfico no modo como Titizé constrói suas imagens: movimentos e quadros que funcionam como planos-sequência, sequências de close nas emoções que atravessam os corpos dos performers. Mas o sentido da peça não é apenas estético; é também ético e coletivo. Ao destacar o verbo «ser» — recordado no dialeto veneziano pela palavra «titizé» (tu és) — a criação convoca a audiência a uma experiência de pertença e memória, um reframe sobre como nos relacionamos com a cidade, com a água e com os rituais sociais que moldam identidades.
Danos contextuais acrescentam peso à estreia: a Compagnia Finzi Pasca celebra mais de 40 anos de carreira internacional, com mais de 40 espetáculos, três cerimônias olímpicas, duas colaborações com o Cirque du Soleil, nove óperas e apresentações em cerca de 600 teatros e festivais em 46 países, atraindo um público global superior a 15 milhões de espectadores. Esse percurso confere ao novo trabalho uma autoridade que se mistura à leveza do riso e à gravidade do simbolismo.
Em declarações na ante-sala da estreia em Roma, Domenico Turi, diretor artístico da Filarmonica Romana, destacou a importância de parcerias que estimulem pesquisa e inovação, enquanto a direção do Teatro Olimpico celebrou o estilo pessoal e a criatividade da companhia. Sem recorrer à palavra como território exclusivo, Titizé — A Venetian Dream projeta um teatro inclusivo: é espetáculo, rito coletivo e, sobretudo, um espelho do nosso tempo.
Serviço: Titizé — A Venetian Dream, Compagnia Finzi Pasca. Teatro Olimpico, Accademia Filarmonica Romana. Datas: 4 a 8 de março de 2026.





















