Por Marco Severini, Espresso Italia — A morte da figura central do clero iraniano, Ali Khamenei, produziu repercussões que atravessam não apenas as praças de Teerã, mas também o vizinho Paquistão, onde protestos pró-iranianos transformaram sedes diplomáticas dos Estados Unidos em palcos de contestação pública. Em Karachi, Islamabad e outras cidades, multidões ocuparam representações norte-americanas em sinal de dor e desafio, evidenciando um efeito dominó que redesenha, em silêncio, o mapa político regional.
O caso paquistanês não é episódico; é o resultado de uma tensão estrutural. O Paquistão ocupa uma posição ambígua no tabuleiro internacional: alinhamentos pragmáticos com Washington convivem com uma demografia que o torna, em termos religiosos, uma potência de segunda ordem no xadrez xiita mundial — detentor da segunda maior população xiita do planeta, logo atrás do Irã. Nesse sentido, a morte de Khamenei constitui um abalo simbólico que pode repercutir nas ruas e nas lealdades confessionais.
Nos corredores institucionais, a reação pública ganhou tom político. O ministro Asif declarou-se veementemente contra a ofensiva conduzida por Estados Unidos e Israel, sugerindo que a escalada foi imposta para expandir uma zona de influência hostil que poderia alcançar o próprio Paquistão. A liderança paquistanesa, ainda segundo o relato oficial, condenou a guerra contra o Irã enquanto negociações diplomáticas estavam em curso — um esforço por preservar os alicerces frágeis da estabilidade.
As implicações práticas dessa crise merecem cartografia cuidadosa. O Paquistão compartilha cerca de 900 quilômetros de fronteira com o Irã. Uma deterioração no interior iraniano pode transformar essas rotas em corredores de refugiados e tráfego de armas — vetores que, sobre um solo já marcado por clivagens sectárias, ampliam o risco de convulsão.
É preciso considerar também a tectônica interna do território paquistanês. No Balochistão persistem movimentos balúchi, em sua maioria de orientação sunita e com reivindicações separatistas. Com a instabilidade do vizinho ocidental, esses grupos podem receber estímulos para intensificar ações contra Islamabad, complicando ainda mais um mosaico já tensionado entre sunitas e xiitas. Esse atrito não é só religioso; é disputa territorial e de influência social — um jogo de peças cujo movimento errado pode abrir linhas de fratura.
Adicionalmente, o Paquistão mantém um conflito aberto na fronteira com o Afeganistão, onde operações e contra-operações continuam a consumir recursos e atenção estratégica. Num tabuleiro em que múltiplos teatros convergem, a estabilidade doméstica paquistanesa será testada pela pressão externa e pelas vulnerabilidades internas.
Do ponto de vista da Realpolitik, Islamabad procura equilibrar interesses: conservar uma relação funcional com os Estados Unidos, ao mesmo tempo em que evita alienar sua base xiita e não se vê empurrado para um confronto direto com Teerã. Essa é uma operação de estilo arquitetônico — sustentar arcos e contrafortes que não desabem frente a abalos sísmicos regionais.
Em síntese, o impacto da guerra e da sucessão iraniana sobre o Paquistão é um problema de múltiplas camadas: simbólico, demográfico, territorial e estratégico. O país se encontra no epicentro de uma realocação silenciosa de influências: um redesenho de fronteiras invisíveis que exigirá de Islamabad decisões calibradas, como movimentos precisos num tabuleiro de xadrez em que cada peça vale muito mais do que parece.






















