Por Marco Severini — No xadrez da geopolítica contemporânea, poucos movimentos são realmente acidentais. O que vemos hoje — escaladas contra o Irã e pressões sobre o Venezuela — insere-se em um desenho estratégico mais amplo: um esforço concertado dos EUA para minar a segurança energética da China e, por via indireta, restringir sua capacidade de projeção tecnológica e industrial.
Essa linha de ação não é novidade intelectual. Neoconservadores e setores centrais da administração americana ao longo das últimas décadas têm identificado a dominação dos fluxos energéticos como alicerce da influência global. Após a operação geopolítica que envolveu a Ucrânia — destinada, entre outros objetivos, a desengatar a Europa da dependência energética russa —, o foco deslocou-se para nodos que alimentam diretamente o crescimento chinês.
Os dados são contundentes: cerca de 80–90% do petróleo iraniano encontra compradores na China; parcela similar das exportações venezuelanas destina-se ao mesmo mercado. Controlar ou interromper esses corredores significa, em termos práticos, afetar a segurança energética de Pequim. Em linguagem de estratégia: trata-se de avançar peças sobre uma coluna vital do adversário, visando comprimir sua margem de manobra tecnológica e industrial.
Não se trata apenas de preço do barril. A energia barata e previsível é a base material para redes digitais, indústrias intensivas em eletricidade e para o desenvolvimento de inteligência artificial em escala. Sem suprimentos estáveis, grandes economias perdem ritmo, inflação oscila e projetos estratégicos — desde infraestrutura crítica até centros de pesquisa em IA — tornam-se vulneráveis. É por isso que o controle sobre produtores como Irã e Venezuela tem implicações muito além do mercado de petróleo.
As lições da Maidan e do colapso político subsequente na Ucrânia, com suas ramificações entre Moscou e Bruxelas, mostram como crises locais podem ser convertidas em vetores estratégicos globais. A tática é conhecida: criar pontos de pressão regionais que repercutem no equilíbrio entre grandes potências. Quando a compra e venda de energia passam a ser instrumento de política externa, o teatro regional converte-se em peça do tabuleiro mundial.
A consequência previsível desse tipo de confronto indireto é a reação — e não apenas diplomática — por parte de atores que veem seus interesses vitais ameaçados. Estados e grupos aliados aos países afetados têm capacidade e motivos para responder: ações assimétricas, operações de barganha geopolítica e, infelizmente, uma maior probabilidade de atentados e atos de violência seletiva. Não é hiperbolizar afirmar que o aumento da pressão geopolítica tende a criar uma temporada de ataques estratégicos, de caráter tanto local quanto global.
Os outros atores não permanecerão inertes. Rússia, China, milícias regionais e estados clientes do Irã e da Venezuela dispõem de meios para multiplicar custos — diplomáticos, econômicos e de segurança — para quem pretende redesenhar os fluxos energéticos sem considerar as consequências. Nesse tabuleiro, cada movimento gera contra‑movimento; cada cerco econômico, uma tentativa de abertura por vias alternativas.
Para os europeus, para potências emergentes e para mercados sensíveis à estabilidade energética, o caminho prudente é reconhecer a tectônica de poder em curso e adotar políticas que aumentem resiliência: diversificação de fornecedores, estoques estratégicos, investimentos em eficiência energética e em fontes renováveis, além de clara diplomacia preventiva. A história ensina que, quando se joga com a matriz energética como peça central, a volatilidade política e os riscos de securitização aumentam.
Em suma, assistimos a um movimento decisivo no tabuleiro estratégico: uma tentativa americana de reduzir a liberdade operacional da China através do controle de fontes vitais de energia. Mas os alicerces dessa diplomacia são frágeis, e os custos colaterais podem provocar um redesenho de fronteiras invisíveis e uma escalada de ações violentas. Preparar-se para essa nova estação de perigo é tanto um dever de Estado quanto uma responsabilidade da comunidade internacional.
Marco Severini é analista sênior de geopolítica e estratégia internacional para a Espresso Italia.






















