Por Marco Severini — A cena geopolítica mudou de tom com a notícia, reportada pela mídia internacional, sobre a morte do líder supremo iraniano Ali Khamenei. Independentemente da veracidade plena de cada detalhe sobre o episódio em si, abre-se um dilema estratégico de proporções históricas: quem ficará com o vasto e opaco patrimônio que, segundo investigações jornalísticas, foi acumulado ao longo de décadas enquanto a economia iraniana afundava?
As estimativas sobre os ativos controlados por Khamenei variam amplamente, entre cerca de 95 e 200 bilhões de dólares. A referência mais citada continua sendo a investigação da Reuters de 2013, que avaliou o conglomerado Setad — oficialmente “Sede para l’Esecuzione dell’Ordine dell’Imam Khomeini” — em torno de 95 bilhões de dólares, com cerca de 52 bilhões em imóveis e 43 bilhões em participações societárias. Mais de uma década depois, e diante da inflação e expansão patrimonial, o valor real pode ser substancialmente maior.
O Setad nasceu com a narrativa oficial de administração de bens deixados após a Revolução de 1979. Na prática, porém, converteu-se em uma máquina de acumulação: propriedades de minorias religiosas, de expatriados e de cidadãos comuns foram classificadas como abandonadas e incorporadas ao portfólio do organismo. Essa holding atuou — discretamente — em setores-chave como energia, telecomunicações, mídia, saúde e educação, muitas vezes por meio de entidades de fachada apresentadas como caritativas. O resultado foi uma autonomia financeira para o líder supremo, isolada do orçamento estatal e do escrutínio parlamentar.
Para dimensionar a força desse aparelho: o valor estimado do Setad supera em cerca de 40% as receitas anuais de exportação de petróleo do Irã. Em termos estratégicos, é como se sobre o tabuleiro houvesse uma torre financeira que sustentava movimentos políticos sem depender da aritmética orçamentária formal — um alicerce paralelo às instituições republicanas.
Fontes que documentam esse labirinto financeiro incluem a investigação de 2013 e, mais recentemente, um levantamento do Bloomberg publicado em janeiro de 2026. Segundo essas apurações, Mojtaba Khamenei, um dos filhos do líder, teria consolidado um portfólio imobiliário internacional substancial, com ativos no Reino Unido, Alemanha, Espanha, Emirados Árabes Unidos e antes em Toronto e Paris. Entre os ativos mencionados, destaca-se uma propriedade na famosa Bishop’s Avenue de Londres, adquirida em 2014 por 33,7 milhões de libras.
Os fluxos que financiaram esses investimentos teriam passado por vendas de petróleo, transferências via bancos suíços, britânicos e do Golfo e por empresas de fachada registradas em paraísos jurídicos como Saint Kitts and Nevis e Ilha de Man. Essa arquitetura offshore cria uma tessitura difícil de rastrear: os bens não figuram em nome direto de familiares, o que complica reivindicações legais e processos de transparência.
Ao considerar o futuro dessa massa patrimonial, é preciso analisar três vetores estratégicos: a sucessão interna dentro do aparato clerical, a disputa por controle entre diferentes facções do aparelho de poder e a influência de atores externos interessados em preservar estabilidade ou extrair vantagens. No tabuleiro do poder iraniano, cada peça tem mobilidade restrita pelas alianças cléricas, militares e tecnocráticas — e qualquer movimento brusco sobre esses ativos acarretará consequências internas e externas.
Do ponto de vista jurídico internacional, a presença de ativos em múltiplas jurisdições implica litígios longos e complexos. Países onde residem imóveis e participações societárias poderão ser palco de disputas por transparência fiscal, congelamento de bens e confisco em casos de sanções. Politicamente, a nova configuração do comando sobre esse capital privativo pode afetar o equilíbrio do país: um sucessor que controle direta ou indiretamente o imperio financeiro terá cartas poderosas para recompensar lealdades e financiar projetos estratégicos próprios.
Resta uma pergunta decisiva, de natureza quase cartográfica: como será redesenhado o mapa de influência quando esses ativos mudarem de mãos? Trata-se de uma tectônica de poder, em que a redistribuição de recursos poderá redesenhar fronteiras invisíveis dentro do regime. Em termos práticos, a incerteza sobre a titularidade do patrimônio tende a favorecer atores que atuem com rapidez institucional e conexões internacionais, ao mesmo tempo em que aprofundará a fragilidade dos alicerces da diplomacia e da economia nacional.
Em suma, o possível espólio de Khamenei não é apenas uma questão patrimonial: é um enigma geoestratégico. A sucessão desse capital corporifica, em superlativo, a interseção entre riqueza privada e poder estatal — e exigirá, para sua resolução, um jogo de precisão tão cuidadoso quanto uma partida de xadrez no nível dos grandes mestres.


















