Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
O choque militar desencadeado pelos Estados Unidos e Israel contra o Irã atravessa as fronteiras do campo de batalha e atinge o universo esportivo, forçando federações, comitês e promotores a reavaliar logística, segurança e a própria viabilidade de competições programadas para as próximas semanas e meses.
À margem da cerimônia de abertura dos Jogos de Inverno de Milano-Cortina, o Comitê Paralímpico Internacional declarou que está “avaliando o impacto nas operações dos Jogos, em particular nos deslocamentos”, lembrando que muitas delegações já se encontram na Europa. “Os Jogos paralímpicos são o evento mais importante do movimento paralímpico e nossa prioridade absoluta é que os atletas estejam no centro da cena, enquanto garantimos Jogos seguros, protegidos e espetaculares nas sedes italianas”, afirmou o órgão em comunicado.
Do lado italiano, Marco Giunio De Sanctis, presidente do Comitê Paralímpico Italiano, definiu a situação no Médio Oriente como responsável por “danos evidentes e relevantes” às Paralimpíadas. Em entrevista à ANSA, De Sanctis admitiu a tensão: “Eu devo incitar à máxima serenidade, mas é tudo muito difícil. A segurança é um problema sério, há um pouco de medo e a vigilância será reforçada para garantir a proteção de todos”.
As consequências, porém, extrapolam o ciclo paralímpico. No horizonte de verão, a Copa do Mundo de futebol, com partidas a serem disputadas nos Estados Unidos, já registra preocupações práticas e políticas. O presidente da federação iraniana, Mehdi Taj, declarou que, após o ataque, “não podemos esperar olhar com esperança para a Copa do Mundo”, o que torna praticamente inviável a participação da seleção iraniana no torneio, marcada por três partidas em solo norte-americano (duas em Inglewood, Califórnia, e uma em Seattle).
Na esfera do tênis, o fechamento de rotas aéreas no Golfo deixou um pequeno grupo de jogadores retido em Dubai ao término do ATP 500 local. Segundo comunicado da Associação de Tenistas Profissionais (ATP), a entidade “está monitorando de perto os desenvolvimentos no Médio Oriente e permanece em contato regular com seus jogadores, equipes e autoridades locais competentes”. Entre os atletas reportados como impossibilitados de seguir viagem está o russo Daniil Medvedev, que afirmou à imprensa nacional estar retido nos Emirados Árabes Unidos e sem condições de alcançar o Masters 1000 de Indian Wells.
A dimensão logística e de segurança também tocou o voleibol: a equipe italiana Cisterna Volley ficou retida em Dubai, situação que espelha dificuldades de transporte que afetam clubes e seleções em diferentes modalidades. Promotores de corridas e organizadores de grandes eventos internacionais, inclusive os campeonatos de ciclismo, provas de pista e competições de esgrima mencionadas nos calendários da temporada, monitoram a evolução do conflito com atenção redobrada. A Fórmula 1, cuja calendarização inclui etapas em regiões sensíveis, entrou no radar como disciplina potencialmente vulnerável a mudanças ou adiamentos, ainda que dirigentes e promotores mantenham diálogo constante para evitar decisões precipitadas.
Mais do que o adiamento de uma prova ou a transferência de um torneio, o que está em jogo é a capacidade do esporte internacional de responder a crises que se manifestam fora dos estádios: cadeias de voos interrompidas, seguros de viagem reavaliados, contingências de segurança, e sobretudo o impacto humano sobre atletas e staffs longe de suas casas. Em um mundo em que calendários são interdependentes e economias esportivas globais estão entrelaçadas, as repercussões podem se estender por meses.
Como observador, reitero que estádios e pistas não são ilhas: refletem alinhamentos geopolíticos, vulnerabilidades logísticas e escolhas de risco dos poderes. A resposta das instituições esportivas — entre contenção pragmática e respeito pelos direitos de competição dos atletas — será um teste à capacidade do esporte contemporâneo de preservar seu calendário sem negligenciar a segurança e a dignidade humana.






















