Por Marco Severini — Em entrevista ao programa Lo stato delle cose, conduzido por Massimo Giletti, o filósofo e politólogo Massimo Cacciari traçou um cenário geopolítico severo: estamos à beira de uma possível terceira guerra mundial e a Europa, na sua análise, perdeu capacidade de influência, situando-se numa posição de vassalagem face às grandes potências.
Cacciari abriu o diagnóstico com uma imagem direta e crua: vivemos um tempo em que prevalece o chamado «direito natural», no qual vence o mais forte. Segundo ele, a normalização da guerra tornou-se um traço da política internacional contemporânea — um novo alicerce das relações entre Estados, em que a tolerância ao conflito cresce enquanto se enfraquece a diplomacia preventiva.
No cerne da sua exposição esteve a atual tensão entre EUA, Israel e Irã. Cacciari afirmou que as grandes potências estratégicas estão se posicionando para um confronto de longo prazo e que, nesse tabuleiro, «o micro-imperio persa não deve existir»: uma maneira lapidar de dizer que Washington e seus aliados consideram inaceitável um Irã regionalmente hegemônico.
Sobre a provável resposta americana, o filósofo ressaltou que os Estados Unidos dificilmente recorrerão a tropas em solo iraniano. «Hoje existem meios para evitar essa fase», disse, explicando que a aposta será em ataques aéreos e bombardeios com o objetivo — certo ou equivocado — de atingir o regime dos aiatolás e abrir caminho para negociações com eventuais sucessores. É uma estratégia de pressão que, na sua leitura, corre o risco de desestabilizar ainda mais a região.
Quanto à Europa, Cacciari foi implacável: o continente, para ele, é «velho, quase decrepito», sem ideias-motor, utopias ou esperanças políticas que o tornem relevante nas grandes decisões globais. A metáfora é a de um centro cultural em ruínas, incapaz de assentar novos fundamentos para uma diplomacia de peso.
Finalizando, o pensador minimizou a relevância dos debates internos italianos perante este quadro estratégico — citando, em tom de desdém, a disputa entre figuras políticas nacionais como irrelevante perante a tectônica de poder que se move no Oriente Médio.
Como analista que acompanha os movimentos de geopolítica como se fossem jogadas num tabuleiro, observo que o diagnóstico de Cacciari revela dois vetores preocupantes: a aceitação crescente da força como norma e a erosão dos instrumentos europeus de mediação. Em linguagem de arquitetura estratégica, os alicerces da diplomacia que sustentavam a paz coletiva parecem fragilizados, enquanto novas linhas de influência redesenham fronteiras invisíveis no teatro regional.
Seja qual for a validade tática das intenções declaradas pelos atores, o dilema permanece: subir a intensidade dos ataques esperando desmoronar um regime ou priorizar canais políticos que evitem uma escalada maior. No tabuleiro global, cada movimento exige não apenas poder, mas cálculo prudente; e a Europa, se desejar recuperar protagonismo, terá de reconstruir posições e narrativas capazes de conter uma conflagração de escala mundial.






















